Odisséia Cotidiana: O Meio dia

A manhã de um aposentado passa voando!...Peguei o carro empoeirado e embarrado pelas patas dos gatos do estacionamento que fica no meio da quadra da Rua Barão do Gravataí, entre as ruas Baroneza do Gravataí e Múcio Teixeira, e saí em direção a esta  última: buzinei na esquina cumprimentando o dono da cantina italiana, e dobrei para a direita em direção à Av. Ipiranga, onde segui para esquerda, no sentido centro-bairro.
Este trajeto conheço bem, percorro há mais de dez anos, até quatro vezes por dia, considerando ida e volta. Faço isso desde quando a Múcio era uma rua tranqüila, com os guris jogando bola nas calçadas e as famílias tomando chimarrão ao entardecer sentados em cadeiras de praia em frente aos prédios (sem grades), isto antes do prefeito Raul Pont construir  uma ponte ( a ponte do Pont!) sobre o arroio Dilúvio e incluir a rua como dipolo de desafogo do trânsito da avenida Getúlio Vargas. Agora, com mão dupla e estacionamento dos dois lados, pra passar um caminhão o carro do sentido contrário tem que encostar no meio fio, e o simples atravessar a rua é um risco...
Entretanto, mesmo os caminhos mais trilhados por nós sempre reservam alguma surpresa em nuanças e recantos, ou ângulos de visão, que sempre nos passaram despercebidos. Na avenida Ipiranga o veranico, que está ocorrendo em pleno mês de agosto, antecipou a primavera e fez florir os ipês , colorindo o meu  trajeto pela margem do arroio até o bairro Santana.
São muitas árvores enfeitando o caminho feito imensos ramalhetes de flores rosas, desenhando tapetes de flores coloridas caídas no chão ao redor do pé de cada uma delas. Notei que há poucos ipês amarelos, deveriam plantar mais, pois alegram muito a paisagem. É mais rara ainda a espécie de ipê com flores cor champanhe, que dão um tom melancólico de quadro de aquarela ao visual, tem apenas um pé em frente ao jornal Zero Hora e outro na altura da esquina com a rua  São Francisco.   
Não localizei nenhum ipê roxo neste trecho, é uma pena, são os mais bonitos sob a luz do sol forte...mas existe em algum outro ponto da Avenida Ipiranga (foto da internet).
Ouvindo no rádio do carro o programa nativista Cantos do Sul da Terra, que estava comemorando um ano de sucesso de audiência na rádio FM-Cultura, pela  avenida Ipiranga fui observando a nova personalidade da minha cidade que está emergindo, ainda que de um jeito meio torto, cheia de  equívocos de projeto e de concepção, mas está se criando a condição objetiva para que o ciclismo seja incorporado aos hábitos dos portoalegrenses: está nascendo a  primeira ciclovia!
 Enquanto no rádio o locutor ia “cevando a palavra” com músicas do Atahualpa Yupanqui  e fazendo leituras de textos de Julio Cortázar (receitas de como subir a escada, de como chorar, de como cantar), fiquei imaginando como poderia ter sido diferente o  meu ir e vir estes anos todos, percorrendo os mesmos três quilômetros em linha reta pela avenida Ipiranga, desde o meu edifício até o meu local de trabalho, apenas que pedalando com segurança num saudável estilo de vida europeu...Realização que ficará para os nosso filhos, especialmente as filhas (tenho visto muito mais meninas do que meninos ciclistas) que já estão ousando enfrentar o trânsito insano dos automóveis com suas bicicletas e mobilizando politicamente a opinião pública através do Movimento Massa Crítica, para a humanização do tráfego de veículos nas vias públicas da cidade: Menos motor e mais amor.
Ao cruzar pela avenida  João Pessoa, vi três garças brancas voando entre as  sete palmeiras californianas (a oitava morreu pouco tempo atrás), as únicas palmeiras do mundo plantadas sobre uma ponte. Fui acompanhando a beleza plástica do voo das garças, paralelo ao trajeto do meu carro, até eu ser detido por um sinal  vermelho no cruzamento  com a rua Silva Só.
As aves seguiram em frente para pescar mais adiante no esgoto do arroio  Dilúvio e eu, depois de receber o sinal verde e passar pelo cruzamento com maior índice de acidentes da capital (onde nunca presenciei nenhum!), dobrei para a direita na primeira rua seguinte, que é a rua São Francisco, onde cheguei ao meu destino na esquina com a avenida Princesa Isabel, local de trabalho da minha mulher.
Assim, com o carro recolhi a família dispersa pra almoçarmos reunidos e  retornei todo o trajeto feito pela avenida Ipiranga, até chegarmos num restaurante buffet na avenida Getúlio Vargas, com opções vegetarianas e carnívoras, para agradar a gregos e troianos. O assunto da reunião almoço familiar foi o de saber quais peças teatrais gostariam de assistir do Festival POA EmCena, já que eu pretendia comprar os ingressos durante a tarde.
Nunca vamos ao teatro, a não ser no mês de  setembro, quando  grandes espetáculos internacionais e nacionais são trazidos pra cidade, ocasião em que, devido aos fortes patrocínios, os preços subsidiados se tornam acessíveis para grandes parcelas da população. É quando a cultura da arte cênica entra no nosso cardápio, então, como membros típicos da nova classe média emergente no país, nos fartamos assistindo a mais de  uma peça por semana. Minha mulher sugeriu que fosse uma peça em espanhol, mas que não fosse com atores argentinos (que falam muito rápido). Já  meu filho, ressabiado dos castelhanos dos EmCena dos anos anteriores, sugeriu que fosse uma peça nacional,  de mais fácil entendimento.
E assim passou correndo o meio dia de um aposentado.

2 comentários:

  1. EMENDA: Com a entrada da primavera floriu três ipês roxos em frente ao Hospital Hernesto Dorneles, beleza!

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  2. ERRATA: Fui informado que as árvores com flores roxas que estão dando boas vindas à primavera não são ipês, são jacarandás roxos!

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