Memórias da Viagem: MARROCOS

A etapa seguinte da viagem consistia no ponto nevrálgico do roteiro, queríamos atravessar o Mar Mediterrâneo e pisar em território do continente africano. Como não conseguimos contratar esta travessia pela agência de turismo no Brasil, optamos por nos hospedarmos na desconhecida cidade portuária de Algeciras, sem nenhuma atração turística apesar de ser no Estreito de Gibraltar, apenas por ser um porto de trânsito turístico da Espanha com a África.
Gibraltar é um penhasco militarmente estratégico no ponto mais estreito do Mar Mediterrâneo, junto a uma cidadezinha de mesmo nome (não estivemos lá, só passamos perto de barco e avistávamos a montanha de Gilbratar desde Algeciras) que é um pedaço continental da Espanha, mas que continua sendo território inglês, o que é um caso pior do que o caso das Malvinas que é uma ilha com alguma distância da Argentina.

Em compensação, como resquícios colonialistas, a Espanha tem a cidade de Ceuta encravada no território marroquino, do outro lado do Mar Mediterrâneo e em outro continente, pode?
Tudo teria sido mais tranqüilo se não estivéssemos nos sentindo na situação de “clandestinos”e, sem o visto espanhol no passaporte, poderia se tornar complicado retornar à Espanha pelo território de Marrocos, região de forte tensão migratória. Estávamos como o clandestino da música que a Adriana Calcanhoto canta, cuja letra foi minha inspiradora de fazer esta travessia dizendo “la vida la deje, entre Ceuta y Gibraltar”.
Chegamos a pensar em desistir do propósito de pisarmos no Marrocos, devido ao alto risco, e desistir até mesmo de tentarmos ir pelo  menos até Ceuta, que é território espanhol no continente africano. Mas em Algeciras fomos informados que nas excursões levadas pelas agências turísticas locais através de Ceuta, em gigantes barcos catamarãs, os riscos eram mínimos, pois os passaportes do grupo são colocados numa sacola e entregues para a polícia marroquina de fronteira, que devolve na volta sem sequer abrir a sacola.

Fomos, vimos e voltamos impressionados com o mundo árabe no Marrocos. Entramos costeando pelo Mar Mediterrâneo o continente africano a partir de Ceuta até a cidade de Tetuán, região que está sendo ocupada com a construção de grandes condomínios para se tornar um balneário de luxo da Europa.
No caminho pelo litoral mediterrâneo fizemos uma parada para andarmos de camelo, o bicho impressiona pela sua altura com todo aquele seu simbolismo mítico de cavalo do deserto, só faltou o deserto para fazermos uma pose islâmica completa para as fotos.
 Em Tetuán conhecemos uma “medina” (cidade antiga dos árabes), onde as pessoas vivem até hoje como se estivessem no meio da Idade Média: indescritivelmente impressionante!  

Digamos que seja um vilarejo cercado por muralhas, que existe desde antiguidade, no qual as pessoas continuam vivendo no mundo pré-medieval.
São infinitas construções contíguas com a porta contendo a janela, como se constituíssem um imenso condomínio labiríntico, contendo moradias de até três pisos...
...apenas que localizada numa bolha do tempo de antes da existência da técnica de refrigeração dos alimentos.
Vista de cima é tal qual uma favela horizontal, apenas que tradicionalmente caiadas de branco para amenizar o calor, com raros poços de luz e, igualmente como as nossas, contêm as lajes como pátio e solário, para onde dão as pequenas janelas das casas.
Em muitos trechos as vielas que serpenteiam por toda a medina se transformam em túneis cujas coberturas são assoalhos de pavimentos construídos sobre o passeio.
A gente se sente dentro de um formigueiro, onde todo mundo é comerciante, uns vendendo para os outros num escambo geral.
Depois, saímos da cidade de Tetuán e atravessamos a ponta do continente em direção à margem do Oceano Atlântico, rumo à cidade de Tânger, onde já convivem as duas realidades: a  labiríntica cidade antiga medieval e seus mercadores ...

...convive com a moderna cidade ocidentalizada e seus edifícios em praias urbanizadas.


Fumar um charuto, pra mim, é um cerimonial de pajé gaudério comemorativo de alguma conquista importante, é como hastear uma bandeira em território conquistado. Pisar na África, berço da raça humana (que é quase como o homem pisar na lua) foi uma emoção tão grande que mereceu a queima de um super incenso, de um puro cubano.

Foi na Medina de Tanger que comprei um pequeno tapete marroquino (prometido como voador!), vítima que somos do assédio sistemático dos mercadores árabes, aos quais os guias combinadamente entregam os seus turistas como reféns.
É uma verdadeira aula-show de como não deixar o freguês escapar ileso, de onde é muito difícil sair sem comprar nada.
Na margem africana do Oceano Atlântico não cheguei a me batizar tocando na água, pois caiu uma chuvarada com vento forte, com tanta intensidade que destruiu o meu guarda-chuva, justamente quando chegamos na praia de Tanger, e já era hora de voltarmos...
No retorno a Ceuta cruzamos pelo litoral o ponto onde o oceano se mistura com o mar, o Atlântico com o Mediterrâneo; também cruzamos fácil a fronteira marroquina e, tcham-tcham-tcham-tcham!, em Ceuta a volta para Algeciras (ao continente europeu), ganhou suspense e emoção.
Em Ceuta soubemos que devido à ventania, por segurança havia sido suspensa a navegação pelo Mar Mediterrâneo. A informação da capitania dos portos era de que possivelmente houvesse saída de barcos duas horas mais tarde, às 21 horas, caso contrário, só no dia seguinte...
         Resumindo, conseguimos retornar ao território espanhol naquela noite (sem problemas com os passaportes) para continuarmos nosso roteiro turístico como clandestinos, seguindo de trem de Algeciras para Granada.
        Granada...é a próxima postagem, aguarde.





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