LULA E EU: OS FILHOS DO BRASIL

Ao assistir “Lula, o filho do Brasil”, o filme patrocinado por grandes empreiteiras e que foi lançado no ano eleitoral de 2010, prometendo ser uma peça chave naquela campanha de sucessão presidencial do Lula, para mobilizar os sertões sem fim, irrigados pela distribuição de renda do “Bolsa Família”, não pude evitar de me comover às lágrimas. Assim como eu, milhares de brasileirinhos por estes brasis a fora se identificaram com aquela história pessoal como sendo, em parte, a filmagem de suas próprias vidas. Mas, no meu caso, achei que valia explorar este tema como uma crônica literária sobre as nossas semelhanças de trajetórias e as grandes diferenças de desfechos.
          Como o Lula, eu e minha família também viemos do interior, migrando da miséria do campo para a pobreza da cidade grande. Também vivenciamos o drama de ter um pai alcoólatra e de sermos oito filhos: quatro homens e quatro mulheres. Sendo que ocorreu com o meu pai praticamente o mesmo que aconteceu com o pai de Lula, morreu longe da família, no ostracismo, em outra cidade.
       Como o Lula eu também tive um professor que, por me julgar inteligente e diferenciado dos demais colegas de internato público estadual (FEBEM), se interessou em me adotar. Igualmente esclareci a ele que não estava interessado em ter outra família, que preferia continuar vivenciando com a minha família, mesmo que fosse apenas durante as férias de verão, com todas as penúrias de sua pobreza, do que usufruir do conforto de uma família adotiva.
         Assim como para o Lula, que o primeiro vislumbre da política teria ocorrido numa assembleia esvaziada do sindicato, quando sentiu que a militância da agitação político-sindical era um ímpeto forte e inevitável na sua vida; para mim foi numa assembleia tensa dos estudantes da UFRGS em greve no início da década de 80, antes da redemocratização do país.
         Como o Lula, eu também me envolvi com militância político-partidária e sindical, nesta ordem, portanto na ordem contrária dele que foi do sindicalismo para a construção do partido. Fui seguindo suas pegadas, após acatar seu chamado para a construção de uma ferramenta política para a classe trabalhadora, o PT, eu no núcleo de base comunitário do bairro Jardim Botânico, no lendário Núcleo JB. Depois eu me joguei de corpo e alma, por cerca de dez anos, abandonei a faculdade pela construção de uma consciência de classe sindicalista na minha categoria funcional dos muncipários. Lula era o nosso grande ícone nacional que pregava, naquela época, autonomia e unidade sindical sem aparelhamento partidário!
       Como o Lula, eu também tive um período de grande consumo alcoólico (detalhe omitido pelos marqueteiros do filme). Juntamente com outras lideranças e militantes, costumávamos ficar até altas horas de beberagem nos bares fazendo análises e comentários políticos das disputas internas e externas do partido e do sindicato. Inclusive até tomei umas cervejas e cachaças com o próprio Lula na casa do meu falecido irmão, na campanha eleitoral de 1982, e muitos tragos com o Olívio Dutra que, quando prefeito, compareceu para prestigiar a minha festa de formatura como engenheiro da UFRGS.
       Como o Lula, guardadas as proporções, eu também percorri uma trajetória de ascensão como liderança e dirigente sindical, no meu caso como presidente fundador da associação pré-sindical dos municipários portoalegrenses, a AMPA (embrião do SIMPA, pois naquela época funcionário público ainda não podia constituir sindicato).
        Como ocorreu com o Lula, do meu primeiro casamento não ficou nenhum filho. Apenas que para mim o seu fim foi menos trágico, não fiquei viúvo e sim divorciado no litigioso. Mais do que o Lula, que no seu segundo relacionamento conjugal teve só uma filha, a Lurian (que os marqueteiros estrategicamente omitiram a sua existência no filme), no meu segundo relacionamento eu tive duas filhas.
         Assim como o Lula, o meu terceiro relacionamento conjugal também está sendo com uma mulher que já tinha um filho (que passou a ser o Meu Garoto em uma feliz realização de pai), mulher com quem eu também continuo a minha humilde caminhada por esta vida.
Assim como o Lula vivenciou a experiência de convencer a categoria em greve de que é hora de voltar sem a vitória, para não ter que voltar depois derrotados e humilhados; eu também vivenciei o engolir sapo de uma negociação tensa e matreira com o prefeito Collares, em que tive que defender o retorno ao trabalho em uma assembleia com milhares de colegas, mesmo sendo chamado de “traíra”, como no filme, pelos porra-loucas radicais new-petistas; eu também obtive o voto de confiança da categoria.
Como o Lula, eu também tenho um diploma do SENAI, apenas que não é de torneiro-mecânico, é de tipógrafo, ofício praticamente extinto, mas que também envolvia o risco da perda de dedos nas guilhotinas motorizadas de cortar papel. Felizmente, embora tantas semelhanças entre nossas trajetórias, aqui começam as grandes diferenças de desfechos. Mantive as minhas mãos intactas.
Lula e eu somos aposentados: ele com uma aposentadoria especial das vítimas da ditadura, e eu por tempo de serviço e idade. Lula e eu recebemos aposentadorias integrais, o equivalente ao último salário na ativa; ele como metalúrgico e eu como servidor público. Lula conquistou sua aposentadoria aos 51 anos de idade; eu também poderia ter me aposentado com esta idade se ele não tivesse estabelecido posteriormente a idade mínima de 60 anos em sua Reforma da Previdência Pública como mandatário da nação. Talvez a grande diferença dos desfechos de nossas trajetórias é de que, ao contrário do Lula e por culpa dele, me desvinculei do PT e do engajamento partidário, tornei-me  #umsempartidos!
Assim como o Lula dedicou postumamente à sua mãe o seu diploma de presidente do Brasil ao colocar o PT no poder (naquela maravilhosa celebração da democracia que foram as cenas de sua posse, cenas que faltaram constar no encerramento do filme), eu também dediquei à minha mãe o meu diploma de engenheiro pela UFRGS. Lula em sua posse como presidente já era órfão de pai e mãe; enquanto eu, por sorte de desígnios do destino, ainda usufruo da convivência com a minha velhinha mãe de 90 anos. Estou, portanto, mais verdadeiramente para filho do Brasil do que ele. Lula, como Getúlio Vargas, já entrou para a História deste país como “pai dos pobres transformados em uma nova classe média de consumo”. Agora falta incluir com sustentabilidade na agenda política os filhos da floresta amazônica (povos indígenas, seringueiros, ribeirinhos e quilombolas) como também sendo filhos legítimos do Brasil.

O LIVRO DO BLOG DIÁRIO DE UM APOSENTANDO DO DMAE

       A carinhosa acolhida pela categoria dos municipários, especialmente pelo quadro funcional do DMAE, do blog “Diário de um aposentaNdo”, que está atingindo os 30.000 acessos (uau!) em quatro anos e meio de existência, mostrou desde o início que havia um grande potencial de possíveis leitores para esta temática. Tanto que andei sonhando com a publicação de um “Livro do Diário do AposentaNdo”, contendo uma seleção de crônicas deste blog, para ser distribuído gratuitamente no Kit do Previmpa, para os novos aposentados, e pela SMA no Curso de Preparação para Aposentadoria (PPA).
 
Naturalmente que toda a pessoa que gosta de escrever almeja ter um livro seu publicado (antes que livro vire raridade feito disco de vinil). No meu caso, entretanto, tenho a noção crítica do quanto de fantasioso é este desejo, pois publicar um livro é criar um “elefante branco” de difícil distribuição. Pior é que seria para ser lido talvez, se tanto, apenas pelos familiares e amigos convocados para a sessão de autógrafos. Contudo, publicar um livro com esquema de distribuição e público leitor garantido é o que todo o “escrevinhador” sonha... Pense comigo, não seria uma boa ideia a publicação do “Livro do Diário do AposentaNdo da PMPA”? Eu acreditei que era, e travei uma cruzada insana para tentar acessar os meios de produção, foi uma batalha que durou vários meses.
O projeto do livro era conter uma seleção de crônicas do blog, especialmente aquelas que têm agradado os municipários por relembrarem muitos dos grandes momentos vividos por esta geração que está se aposentando agora na Prefeitura, órgão que tem um quadro funcional envelhecido, com milhares de aposentandos. Assim, tomei a audaciosa iniciativa de sugerir aos canais competentes da Prefeitura de Porto Alegre (SMA-PREVIMPA) este projeto de bancar a edição do livro. Tentei convencê-los que, com o meu convívio com a problemática durante os últimos anos, havia conseguido captar várias nuanças e questões de grande valia para os aposentaNdos com N maiúsculo, os conscientes do passo que estão daNdo.... Meu último movimento foi o de procurar o apoio logístico do DMAE. E tudo deu em nada!
O fato é que tínhamos um produto literário cultural de interesse dos municipários, uma vez que o seu conteúdo tem comprovada boa aceitação pelo servidores do DMAE e da PMPA em geral (conforme demonstram os acessos no blog que chegou a atingir uma média de 800 visitas mensais). Tínhamos à disposição o suporte de orientação técnica da Secretaria Municipal de Cultura em publicação de livros, e tínhamos um ótimo esquema de distribuição no Curso PPA e no Previmpa. Mas nos faltou o principal, os meios capitalistas de produção: Karl Marx tinha razão! Assim, queimados todos os cartuchos e afundados todos os navios, só me restou agradecer o apoio da Tanise da SMA e do Fernando Rozano da SMC, e seguir em frente fazendo arte alternativa e libertária, no espaço democrático e sem custo de produção do blog, veiculando o meu trabalho nesta ferramenta anarquista que é a internet.
Desta longa batalha na busca de patrocínio cultural para o projeto do livro “Diário de Um AposentaNdo do DMAE”, contendo uma seleção de crônicas deste blog, resultou de positivo a constatação de que não era uma tarefa fácil nem rápida selecionar as crônicas que iriam compor o livro. Primeiro porque era preciso que se fizesse a leitura de todas as quase trezentas postagens e, as escolhidas, precisariam ser revisadas e muitas condensadas para se adequarem ao formato de livro. Relendo as postagens constatei que alguns textos eram abusivamente extensos. Outro saldo que ficou deste decepcionante episódio de desprestígio do poder público para com as manifestações artísticas de seus servidores, foi o de ficar constatado que no primeiro ano de existência do blog foi o período em que foram postadas a maioria absoluta das crônicas; justamente quando ainda havia poucos leitores. Na época fui com tanta sede de escrever ao pote do blog que publiquei, em média, mais de dois textos por semana, era um verdadeiro massacre aos pobres leitores. Como ninguém costuma retroceder para fazer leituras de postagens antigas de blogs, a conclusão óbvia é que grande parte das matérias postadas no blog continuavam inéditas para a maioria dos novos leitores do Diário de Um AposentaNdo.
Por estas e por outras é que, em meados de 2012, o blog foi repaginado anunciando o início de uma nova fase, em que seriam publicados “remakes” de algumas crônicas selecionadas, juntamente com as novas postagens que surgissem. Era uma estratégia de ir fazendo a seleção visando, no longo prazo, a edição de um livro que deixasse o registro da geração dos servidores municipais que vivenciaram o momento histórico da travessia entre dois séculos (XX e XXI) e entre dois milênios (1974 - 2014), em que vivemos a transição da ditadura para a democracia brasileira. Justamente nós que, dos 50 anos de existência do Dmae, por cerca de 40 anos contribuímos para a construção de sua história. 
Fizemos no blog, a partir de então, uma “Antologia” das crônicas pertinentes ao mundo dos municipários, deixando de fora os textos mais político-filosóficos e os de cunho pessoal.  Caracterizamos fortemente essa nova fase do blog como “pró-Livro do Diário de Um AposentaNdo”. Hoje, dois anos depois, podemos dizer que estamos concluindo a etapa de seleção das postagens do projeto do livro e passamos a ficar na espera de uma oportunidade para a sua publicação, nem que seja artesanal (como todos os meus dez outros livros).  Mesmo assim, para isso se realizar numa tiragem da ordem de dezenas de exemplares, teremos que fazer uma “vaquinha online” (Crowdfunding, um financiamento colaborativo como fizeram Nei Lisboa e Vitor Ramil) entre as pessoas interessadas em ter um volume como recordação de seu local de trabalho, ambiente que na realidade já não existe mais, só em nossa memória afetiva quando evocada pelas narrativas contidas no livro. 

A ILUSÃO DA PARIDADE NA APOSENTADORIA


Depois da postagem anterior, Um Estranho no Ninho do Dmae, em que escrevi: “Extingue-se assim o sentido e a motivação da existência deste blog “Diário de Um AposentaNdo do Dmae”, blog que por quatro anos e meio esteve entretendo vocês com historinhas deste mundo encantado perdido no tempo.” – fiquei pensando em escrever uma “Apologia Final do Blog”, falando de sua importância para a minha vida de aposentaNdo, da receptividade nos municipários com cerca de 30 mil acessos, para encerrá-lo em alto astral e Ibope.
Mas a problemática da “paridade”, levantada na última crônica, me mostrou que sempre haverá novos temas de relevância e que seria burrice minha fechar esta janela de comunicação afetiva com a minha categoria de servidores públicos municipais. Assim, vocês terão que continuar me engolindo, apenas que em doses mais eventuais aqui, mas não ficarão isentos do assédio do meu outro blog de “Crônicas Avulsas no Tempo...”.

Como me mostrou o engenheiro-mecânico-filósofo e último dinossauro Álvaro Silveira Neto: A paridade dos aposentados com os servidores da ativa é uma falácia! Agora, após acessar ao texto da Lei 11.253 de 4/4/2012, eu diria que o conceito de paridade é a propagação da ilusão romântica de um direito, que na realidade nunca se realiza. Senão, vejamos. o pessoal da ativa ganhou duas progressões a mais, as referências E e F com a nova lei. A questão é saber se os aposentados anteriormente com a letra D, que saíram em “final de carreira”, ficaram de fora por serem uma espécie já extinta de dinossauros, fósseis inativos? E a paridade? Resposta: A paridade morreu, por que era uma ilusão romântica.
 A prova desta manobra excludente dos “velhinhos” está nas mudanças contidas no pacote da Reestruturação do Dmae em 2012: Ampliação da Progressão Funcional, criando mais duas referências (letras E e F). Nos artigos destinados à adequação dos detentores ativos da referência D, a lei estabelece que fica assegurado o enquadramento na referência E a quem tiver 9 anos ou mais na letra D; e enquadramento na referência F a quem tiver 18 anos ou mais na letra D, “na data de publicação desta lei”. Significa que, se os detentores ativos da referência D não cumprirem as exigências na data de publicação da lei, vão cair na vala comum de concorrer às progressões com os novatos. Portanto, não migram mais automaticamente para a letra seguinte, quando completarem os 9 e os 18 anos exigidos respectivamente para a referências E e F.
Na visão romântica de paridade que nos foi incutida, qualquer vantagem nova atribuídas aos ativos teria que automaticamente ser concedida aos inativos. Se ganharam letras E e F os servidores ativos que estavam na letra D,  o mesmo teria que acontecer com todos os aposentados em igual condição, certo? Errado, pois como diz a canção dos Engenheiros do Hawai, o crime perfeito não deixa suspeitos, e a lei é clara! A lei estabelece que fica assegurado o enquadramento na referência E ao inativado com direito à paridade que tenha percebido, “enquanto ativo”, por 9 anos ou mais na letra D; e enquadramento na referência F a quem tiver percebido por 18 anos ou mais na letra D, “na data de publicação desta lei”. 
Significa que, se os detentores inativados da referência D não cumprirem as exigências na data de publicação da lei, nunca mais terão oportunidade de progredir, nem mesmo quando completarem os 9 e os 18 anos exigidos respectivamente para as referências E e F. Quem está na ativa, e não cumpriu as exigência na data da lei, ainda tem o recurso de ir adiando a aposentadoria até garantir as novas progressões de final de carreira. Os inativos não contemplados ficaram definitivamente de fora, até mesmo para os que faltaram apenas alguns dias para cumprir as exigências. 

A moral da história é que a paridade, tal como a concebíamos, era realmente uma ilusão romântica, agora falecida. A paridade, nua e crua, significa apenas ter direito aos benefícios concedidos, como se estivéssemos na ativa naquele exato momento. Se eu estivesse na ativa na data da lei não ganharia a referência E, e muito menos ganharia a F, por não somar 9 anos de letra D. Se a lei fosse de hoje e eu me aposentasse agora, eu já ganharia pelo menos a letra E. Mas, como inativo não progride,  ficarei chupando o dedo o resto da vida. Assim, sem a ilusória paridade, os Dinossauros extintos recentemente são mais graduados e mais bem pagos do que os que se aposentaram até 2011. A lei de 2012 é dura e sem medidas paliativas de transição, maldosamente fecha a porta atrás de si. Quem entrou, entrou. Quem não entrou, não entra mais. A não ser que alguma nova jurisprudência nos devolva a ilusão romântica da paridade...

UM ESTRANHO NO NINHO DO DMAE

Tudo mudou depois da reestruturação do Dmae ocorrida em 2012, nada mais é como antes. Houve total mudança dos nomes dos órgãos internos e muitas trocas de locais de trabalho com fusão de atividades distintas. Um aposentado da Velha Guarda vai ter grande dificuldade para localizar o que restou de sua antiga tribo de trabalho. A Divisão de Manutenção, tratada como um “Case Especial Piloto”, se manteve integralmente no mesmo lugar, mas deixou de  ser DVM e virou GMAN.
Outro dia, em uma das minhas já raras visita na nova GMAN, fui utilizar o banheiro do vestiário das equipes de manutenção, local reformado recentemente conforme os critério da OHSAS (sigla em inglês de Sistema de Avaliação da Saúde e Segurança do Trabalhador), e fiquei impressionado com o que vi. Normalmente os vestiários dos peões se assemelham a cenas de presídios, com toalhas velhas e fardamentos encardidos e puídos estendidos nas portas dos armários. Mas, acreditem, no “Case Piloto GMAN” estes problemas se acabaram.
 E não é só isso, agora cada funcionário simplesmente joga a toalha e os fardamentos sujo na tulha, no coletor de roupas para a lavanderia, e os recebem semanalmente de volta em seus respectivos escaninhos numerados, tudo lavado e passado no capricho. Quem imaginaria uma coisa dessas há tempos atrás?... Mas quem consegue imaginar esta realidade, não só num “Case Piloto”, mas acontecendo em todo o Dmae e, quiçá, em toda a Prefeitura?...Só pinel!


Assim, os vínculos com antigo ambiente de trabalho de um aposentado vão se rompendo, pois o inativo já faz parte de uma realidade que deixou de existir. A questão da “Assistência Médica”, por exemplo, fez com que eu mantivesse um vínculo com uma associação do Dmae, a Aeapoppa, por causa do Plano de Saúde da Unimed. Quase quarenta anos se passaram durante a minha carreira profissional, e a questão da Assistência Médica continua na mesma embromação por parte da Prefeitura. Atualmente o problema tem sido agravado com buscas de alternativas esdrúxulas, como opção de vincularem os municipários ao Instituto de Previdência do Estado (IPE) ou, pior, o Dmae patrocinar um convênio, feito nas coxas, com uma clínica particular, o Centro Clínico Gaúcho, em detrimento da Associação dos Funcionários Municipais (AFM), que há décadas presta atendimento médico aos servidores. A AFM tem conseguido manter o Hospital Porto Alegre atendendo os servidores, apesar da sonegação dos repasses das verbas devidas pelo Dmae, como órgão patronal que devia garantir os direitos trabalhistas dos municipários de terem assistência médica. Hoje, definitivamente desiludido, estou migrando para o Plano de  Saúde da Unimed conveniado com o Sindicato dos Engenheiros (SENGErs). Portanto, estou perdendo também este vínculo com o Dmae através da Aeapoppa:
- Valeu bravos colegas da diretoria da Aeapoppa, parabéns pelo exemplar trabalho de recuperação financeira da associação para garantir o plano de saúde para mais de 700 vidas!
Saiu o último Dinossauro da Manutenção do Dmae: Éramos quatro na sala, os quatro dinossauros na jaula de extinção. Com a aposentadoria do Jalba, ficamos em três. Depois, com a minha saída para o mundo encantado dos “inativos”, restaram apenas dois na cela do Jurassic Park. A Engenheira Catarina, a Madrinha da DVM, protocolou o seu pedido de aposentadoria no Previmpa em agosto/2013. Depois disso restou apenas o Álvaro como o último Dinossauro da Manutenção do Dmae, o último de nós a atingir o status de Dinossauro com D maiúsculo, ou seja, além de já ter a função gratificada de Diretor incorporada ao salário e ser letra D na progressão final do Plano de Carreira, também conquistar os direitos de integralidade e paridade com o pessoal da ativa ao se aposentar.
O último dos Dinossauros, como já comentei aqui, é um jurássico que vai comendo o mingau pelas beiradas, vai cozinhando o galo com sua risadinha de hiena esperta e sua paciência de monge tibetano e, via de regra, de tanto “rodear o toco”, como quem não quer nada, acaba sempre desencantando soluções mágicas inesperadas. Então, saibam todos, que o Álvaro protocolou  o seu pedido de aposentadoria e irá se aposentar, não só com o status de Dinossauro com D maiúsculo, mas também levando as letras E e F (Dinossauro Especial Fortificado), letras de progressão criadas como vantagens após a minha aposentadoria. Os novos Dinossauros extintos são mais graduados e mais bem pagos do que os que deixaram de ser ativos até 2011.
No evento da saideira “dedada” do Álvaro no relógio ponto biométrico do Dmae, no seu último dia de trabalho, ele me fez entender que o tal direito de “paridade com o pessoal da ativa”, conquistado em lei pelos aposentados, é uma falácia. Só agora me caiu a ficha, cerca de dois anos depois, que no pacote da Reestruturação do Dmae em 2012, além da concessão de Gratificação por Desempenho de Atividade Essencial (GDAE), passou de contrabando outra coisa. O acordo aprovado pelos vereadores estabeleceu também mudanças no Plano de Carreira: Ampliação da Progressão Funcional, criando mais duas referências (letras E e F) para serem  concedidas a quem completar 24 e 30 anos de serviço, respectivamente. Os aposentados anteriormente em “final de carreira”, por serem uma espécie já extinta de dinossauros, fósseis inativos, ficaram de fora; terão que buscar na justiça o direito à paridade com os servidores ativos para também passarem da letra D (Débil) para a F (Fortificado).
Dizíamos que o último que saísse devia apagar a luz e emparedar a “Sala dos Dinossauros”, o que  acabou de acontecer metaforicamente. Agora sou um “estranho no ninho” daquele Jurassic Park da Manutenção do Dmae, o qual estará para sempre emparedado nas lembranças e memórias das várias gerações de servidores que por lá passaram, como nas minhas centenas de crônicas memorialistas escritas aqui. Extingue-se assim o sentido e a motivação da existência deste blog “Diário de Um AposentaNdo do Dmae”, blog que por quatro anos e meio esteve entretendo vocês com historinhas deste mundo encantado perdido no tempo. Como dizia o mecânico-filósofo Alvinho: O tempo é um esmeril!

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RESGATE DE MINEIRO SOTERRADO NO MAE

Na grande aldeia global midiática que é o mundo hoje em dia, ficamos todos sofrendo solidários com a tragédia da explosão de uma mina na Turquia, onde morreram mais de 300 mineiros. Enquanto engenheiro de minas que sou, me sinto um sobrevivente como os 33 mineiros que ficaram por 69 dias soterrados numa mina subterrânea de cobre e ouro no Chile em 2010, cujos trabalhos de resgates acompanhamos dia a dia feito um reality show; me sinto irmanado com a aflição dos sobreviventes como sendo de meus companheiros de trabalho. Digo isto por ter tido a experiência de ficar oito horas por dia durante um mês numa mina subterrânea semelhante, e saber muito bem a sensação que a gente sente ao estar lá embaixo, trabalhando entre vultos humanos tisnados que mais aparecem assombrações, e sob a ameaça constante de um soterramento  inesperado.
 Com o curso de engenharia de minas tive o ganho cognitivo de ter estudado mais a fundo a geologia do planeta em que vivemos, a loucura que  é saber que o miolo da terra é em realidade a figura metafórica do inferno, um caldeirão incandescente onde todas as rochas estão derretidas, e que o globo terrestre é uma panela de pressão cujas válvulas de escape são os vulcões. É punk! Logo compreendi que naquela vida de mineiro em que estagiei, que mais se assemelhava a trabalhar no inferno (nas subterrâneas Minas do Leão de carvão) ou no purgatório (nas minas de ferro a céu aberto da Vale do Rio Doce em Itabira, MG), não conseguiria  nunca  encontrar  um Paraíso para trabalhar, até porque não há mineração nas nuvens.

Sem poder contar com esta perspectiva de almejar um paraíso para exercer o meu ofício de mineiro, tratei logo de buscar novas atividades que me oferecessem pelo menos um oásis. Por isso, durante os últimos vinte e cinco anos me tornei um aprendiz de várias outras profissões. Estudei jornalismo na PUC (enquanto durou a bolsa de estudo que o Dmae me fornecia), depois novamente na UFRGS passei a estudar filosofia (de 2001 até 2009, devido ao meu jubilamento da faculdade). A partir de 2010 passei a ser aluno do curso de Letras da UFRGS, onde continuo até agora, sempre sem a mínima pretensão de conquistar outro canudo de formatura. Estudo apenas para ampliar a minha formação pessoal: faço por prazer e somente as disciplinas que me interessarem de cada curso e nada mais, sem estresse.
Mas sempre reconheço como “bendito” o canudo de Engenharia de Minas, pois aproveitei ao máximo o título para ganhar “o pão de cada dia” trabalhando como engenheiro do DMAE na fabricação de água potável, por  mais de 35 anos. Por sorte, eu entrei no último concurso público genérico, com provas únicas e nomeação por ordem da classificação geral, independente se o candidato  era engenheiro civil, de mecânica, de elétrica ou até de minas. Era meio esdrúxulo, mas sempre fora assim até o início de década de 1990. O curioso é que até hoje só existe o “cargo de engenheiro” na Prefeitura, sem especificar se é engenheiro disto ou daquilo, e as atribuições do cargo são genéricas englobando todas as especialidades de engenharia. Hoje continua sendo meio esquisito ter diferentes provas e listas de classificações para um mesmo cargo funcional que continua sendo de “engenheiro genérico”, sem contemplar as especializações. Assim, já que todas as vagas do cargo são tecnicamente iguais, passou a ficar na mão da administração política no poder decidir (subjetivamente?) quais as suas prioridades, abrindo brecha para que possa nomear mais classificados de uma determinada especialidade visando beneficiar candidatos correligionários ou apadrinhados que estão nesta lista de espera. São questões pendentes para um novo Plano de Carreira dos Municipários...
 Sei que, por muita sorte, em função desses novos critérios nos concursos públicos que fecharam as portas para várias outras engenharias, fui o último engenheiro de minas a ingressar no Dmae. Muitos leitores podem ficar se perguntando: O que é que Engenharia de Minas tem que ver com água? Agradeço a pergunta e respondo de pronto: A substância água não deixa de ser um minério líquido aflorante a céu aberto, e que ocorre em jazidas denominadas rios ou lagos,  cuja gênese se dá nas nuvens. Portanto, a água é a obra prima perfeita para ser o paraíso como local de trabalho de um engenheiro de minas, e o Dmae foi o meu.
Sinto-me como os mineiros chilenos  e os poucos que restaram na mina turca, um sobrevivente do inferno dantesco que é o ambiente de trabalho de uma mina subterrânea, apenas que por sorte consegui sair antes que qualquer soterramento me aprisionasse neste suado ofício de ganhar o pão com o minério que o diabo amassou. Pude assim ganhar a vida “só na sombra e na água fresca”: no escritório com ar condicionado de uma fábrica municipal de água potável em plena capital gaúcha. Fui, portanto, um urbano engenheiro de minas que esteve soterrado apenas pelo cumprimento do tempo de serviço, mas que foi finalmente resgatado em 2011 para a superfície livre da aposentadoria, onde me encontro: livre e solto como um ex-engenheiro!

SORTE: HÁ BOLSAS DE ESTUDO NO DMAE

Depois de toda aquela  “rasgação de seda” sincera  que fiz na postagem anterior  para o coordenador do PISA, do tal projeto de resgate da balneabilidade do Guaíba,  aproveito para fazer um gancho e resgatar um episódio pitoresco, em que o mesmo Valdir Flores mostrou toda a sua versatilidade e conquistou de vez a minha terna consideração. Trata-se do Causo das Bolsas de Estudo do DMAE ocorrido no ano de 2001, quando os funcionários foram surpreendidos, às vésperas  do período de matrícula das escolas  de Ensino Fundamental e Médio, ao receberem grampeado ao contra-cheque de outubro um comunicado da Administração Petista (lá  pelo seu terceiro mandato consecutivo). Dizia que havia um pacote de alterações dos critérios de concessão do Auxílio de Bolsas de Estudos através da Instrução DG 295/01. Naturalmente, os colegas pais e também os estudantes, que viam suas vidas serem desorganizadas sem a menor parcimônia e consideração, se organizaram num movimento legítimo e espontâneo de reação e tentativa desesperada de reverter a decisão decretada.
           Foi assim que, numa assembléia realizada no refeitório da Manutenção, chamada pela própria Administração para tentar acalmar o “burburinho” da massa se agitando, com a presença de mais de 100 funcionários, foram apontados os inúmeros equívocos contidos na resolução, tais como:
-A precipitação truculenta de implantação de modificações radicais sem o mínimo prazo de preparação psicológica e material das pessoas, que possivelmente teriam que mudar imediatamente de colégio seus filhos;
-A limitação de inscrição de apenas dois filhos como beneficiários (os pais teriam que escolher quais dos seus filhos seriam excluídos);
- O Critério de Sorteio de Bolsas Integrais até o final do curso do dependente, foi o ponto no qual a assembléia dos servidores decidiu concentrar a sua rejeição, por considerá-lo excludente, uma vez que reduzia em mais de 50% o número de beneficiários por ser um critério que dava tudo para poucos e nada para muitos, além do sistema de sorteios se constituir na sistematização de uma tortura psicológica anual sobre as crianças e familiares (pois todos os anos haveria novos sorteios e a ameaça de perder a bolsa e ter que trocar de escola).
         Por ocasião dessa assembléia, da qual a Administração se retirou depois de se ver veementemente contestada, os servidores assumiram o comando da reunião e constituíram uma Comissão de Representantes dos Funcionários (composta por Valdir Flores/DVO, Silvia Fabbrin/COJ, Antônio Coelho/DVI, Magda Granata/DVO, Dione Borges/DVR, Denise Regina/DVR, Maria de Fátima Rodrigues/DVH, Mara Lúcia Diel/SVG, Eduardo Dias/COJ, Iara Morandi/DVP e Marco Guimarães e eu pela DVM). A Comissão buscou, inutilmente, por vários dias estabelecer um canal de comunicação, até  conseguir arrombar uma brecha diretamente no Gabinete do Diretor Geral, através de um ”Ato Público” (com cartazes e pirulitos) realizado nos Jardins da ETA Moinhos de Vento.

Durante a evolução deste movimento foi se destacando a liderança carismática do colega Valdir Flores, e se revelando a sua talentosa capacidade oratória de se comunicar com a multidão reunida, o qual acabou assumindo naturalmente  a coordenação daquela luta; enquanto eu passei a funcionar como uma espécie de consultor de estratégias de ação do movimento, devido à minha larga experiência sindical.
            Em reuniões manipuladas pela Administração, em vão a Comissão de Representantes sugeria a discussão de um “Rateio Escalonado por faixas salariais” (dando mais pra quem mais precisa), até que a Administração publicou o Regulamento do Sorteio com ostensiva prepotência, incluindo alterações (para pior) dos critérios após o período de inscrições dos candidatos ao benefício, e restringindo para apenas a “faixa 1” a concessão de bolsa integral até a conclusão do respectivo nível  de ensino (Infantil, Fundamental ou Médio).

           Confesso que entrei meio de gaiato nesta peleia, pois na verdade eu entrei querendo protestar contra a extinção da minha bolsa de estudo do curso de Jornalismo na PUC (foram canceladas as bolsas de quem já tivesse curso superior e exercesse cargo como tal). A ideia da Administração de mexer nos critérios de distribuição das bolsas de estudo dos filhos dos servidores era válida e tinha seus méritos, uma reforma era necessária, mas que fosse discutida com os usuários e não atropelada e metida goela abaixo às pressas. Até então, antes deste tumulto todo, as minhas filhas estudavam em escolas particulares, mas não conveniadas com as bolsas de estudo do DMAE. Entendia que era preferível pagar e poder escolher livremente a escola que coubesse no meu orçamento, do que ficar dependente da pequena ajuda de custo “rateada igualmente entre todos os pretendentes” que era oferecida pelo Departamento. Mas, com a proposição da Administração de oferecer “bolsas de estudo integral e até o final do Curso Fundamental”, resolvi concorrer na loteria deste verdadeiro “prêmio da sorte grande”, inscrevendo as minhas filhas para se candidatarem às vagas de bolsas na caríssima e ótima Escola João XXIII.
         O pitoresco é que no famigerado sorteio, justamente nós que éramos radicalmente contra ele, por ser um critério que “dava tudo para poucos e nada para muitos”, fomos sorteados: o Valdir com uma e  eu com duas bolsas, e as nossas mulheres, as Magdas (Rolim e Granata), também foram sorteadas com uma bolsa cada uma...Provamos que estávamos certos e eles errados: ficando com tudo entre poucos! A minha filha menor entrou na primeira série e a maior na quinta série, ambas na nova escola por força do fatídico sorteio. A batalha não acabou por aí, pois  foi preciso que recorrêssemos à justiça para garantir o que estava determinado na IDG295/01, ou seja, que a bolsa seria integral até o final do Curso de Ensino Fundamental para os servidores de todas as faixas salariais. O fato é que somente através da IDG301, publicada em outubro/2002 (um ano depois!), é que foi modificada a redação da instrução anterior, restringindo para apenas a “faixa 1” a bolsa integral até a conclusão do respectivo nível de ensino (portanto, legalmente válida somente para os futuros sorteados!).
A primeira vitória foi a conquista de uma “liminar judicial” e, por fim, a sentença nos dando ganho pelo mérito da causa, com a qual garantimos o benefício do “grande prêmio” que ganhamos no sorteio e que tentaram nos surrupiar. O importante é que os nossos filhos, como os de tantos outros funcionários, tiveram literalmente a “sorte” de estudarem em boas escolas, que muitos não teriam acesso, com ou sem sorteio, se não fosse através das bolsas de estudo que DMAE propicia aos seus servidores e dependentes.
-Valeu DMAE! 

COMENTÁRIOS DA POSTAGEM ORIGINAL EM 2010:

-----Mensagem original-----
De: Valdir Flores
Enviada em: 13 de dezembro de 2010
Para: Celso Afonso Machado Lima
Assunto: RES: Balneabilidade e Bolsas de Estudo

Celso, como tenho feito regularmente, li tua matéria no blog e tua “rasgação de seda” como dito por ti. É bom lembrar nossas conquistas do passado, que sirvam de exemplo. Sabes que aquele movimento surgiu do ânimo das pessoas então envolvidas, sem outra conotação senão a de buscarmos resgatar o cumprimento das regras estabelecidas, evitando o atropelamento de nossa dignidade. Obrigado pelas lembranças, Valdir.

----Mensagem original-----
De: Magda Cristina Granata
Enviada em: 13 de dezembro de 2010
Para: Celso Afonso Machado Lima;
Assunto: RES: Balneabilidade e Bolsas de Estudo

Caro colega Celso,
Só para registro e colaborar com tua retrospectiva, eu fazia parte deste movimento contra este tipo de "distribuição " para filhos de funcionários e também fui contemplada. Na época eram bolsas integrais, escalonadas por salários . Era uma única vaga no Colégio IPA, a ser disputada por mim e nossa colega Miriam Perin. Combinamos que, independente de quem fosse a "felizarda", dividiríamos os créditos. E assim aconteceu. Fui a feliz ganhadora de uma Bolsa Integral para minha filha, e todo o mês repassava 50% deste valor a minha amiga Miriam. Tenho certeza absoluta, de que se fosse o contrário ela tb. teria cumprido nosso acordo. Fica como exemplo de como podemos amenizar distorções para a tão famosa "Justiça Social". E um beijo a minha amiga Miriam, abraço a todos, Magda Cristina Granata.