Odisséia Cotidiana: O Meio dia

A manhã de um aposentado passa voando!...Peguei o carro empoeirado e embarrado pelas patas dos gatos do estacionamento que fica no meio da quadra da Rua Barão do Gravataí, entre as ruas Baroneza do Gravataí e Múcio Teixeira, e saí em direção a esta  última: buzinei na esquina cumprimentando o dono da cantina italiana, e dobrei para a direita em direção à Av. Ipiranga, onde segui para esquerda, no sentido centro-bairro.
Este trajeto conheço bem, percorro há mais de dez anos, até quatro vezes por dia, considerando ida e volta. Faço isso desde quando a Múcio era uma rua tranqüila, com os guris jogando bola nas calçadas e as famílias tomando chimarrão ao entardecer sentados em cadeiras de praia em frente aos prédios (sem grades), isto antes do prefeito Raul Pont construir  uma ponte ( a ponte do Pont!) sobre o arroio Dilúvio e incluir a rua como dipolo de desafogo do trânsito da avenida Getúlio Vargas. Agora, com mão dupla e estacionamento dos dois lados, pra passar um caminhão o carro do sentido contrário tem que encostar no meio fio, e o simples atravessar a rua é um risco...
Entretanto, mesmo os caminhos mais trilhados por nós sempre reservam alguma surpresa em nuanças e recantos, ou ângulos de visão, que sempre nos passaram despercebidos. Na avenida Ipiranga o veranico, que está ocorrendo em pleno mês de agosto, antecipou a primavera e fez florir os ipês , colorindo o meu  trajeto pela margem do arroio até o bairro Santana.
São muitas árvores enfeitando o caminho feito imensos ramalhetes de flores rosas, desenhando tapetes de flores coloridas caídas no chão ao redor do pé de cada uma delas. Notei que há poucos ipês amarelos, deveriam plantar mais, pois alegram muito a paisagem. É mais rara ainda a espécie de ipê com flores cor champanhe, que dão um tom melancólico de quadro de aquarela ao visual, tem apenas um pé em frente ao jornal Zero Hora e outro na altura da esquina com a rua  São Francisco.   
Não localizei nenhum ipê roxo neste trecho, é uma pena, são os mais bonitos sob a luz do sol forte...mas existe em algum outro ponto da Avenida Ipiranga (foto da internet).
Ouvindo no rádio do carro o programa nativista Cantos do Sul da Terra, que estava comemorando um ano de sucesso de audiência na rádio FM-Cultura, pela  avenida Ipiranga fui observando a nova personalidade da minha cidade que está emergindo, ainda que de um jeito meio torto, cheia de  equívocos de projeto e de concepção, mas está se criando a condição objetiva para que o ciclismo seja incorporado aos hábitos dos portoalegrenses: está nascendo a  primeira ciclovia!
 Enquanto no rádio o locutor ia “cevando a palavra” com músicas do Atahualpa Yupanqui  e fazendo leituras de textos de Julio Cortázar (receitas de como subir a escada, de como chorar, de como cantar), fiquei imaginando como poderia ter sido diferente o  meu ir e vir estes anos todos, percorrendo os mesmos três quilômetros em linha reta pela avenida Ipiranga, desde o meu edifício até o meu local de trabalho, apenas que pedalando com segurança num saudável estilo de vida europeu...Realização que ficará para os nosso filhos, especialmente as filhas (tenho visto muito mais meninas do que meninos ciclistas) que já estão ousando enfrentar o trânsito insano dos automóveis com suas bicicletas e mobilizando politicamente a opinião pública através do Movimento Massa Crítica, para a humanização do tráfego de veículos nas vias públicas da cidade: Menos motor e mais amor.
Ao cruzar pela avenida  João Pessoa, vi três garças brancas voando entre as  sete palmeiras californianas (a oitava morreu pouco tempo atrás), as únicas palmeiras do mundo plantadas sobre uma ponte. Fui acompanhando a beleza plástica do voo das garças, paralelo ao trajeto do meu carro, até eu ser detido por um sinal  vermelho no cruzamento  com a rua Silva Só.
As aves seguiram em frente para pescar mais adiante no esgoto do arroio  Dilúvio e eu, depois de receber o sinal verde e passar pelo cruzamento com maior índice de acidentes da capital (onde nunca presenciei nenhum!), dobrei para a direita na primeira rua seguinte, que é a rua São Francisco, onde cheguei ao meu destino na esquina com a avenida Princesa Isabel, local de trabalho da minha mulher.
Assim, com o carro recolhi a família dispersa pra almoçarmos reunidos e  retornei todo o trajeto feito pela avenida Ipiranga, até chegarmos num restaurante buffet na avenida Getúlio Vargas, com opções vegetarianas e carnívoras, para agradar a gregos e troianos. O assunto da reunião almoço familiar foi o de saber quais peças teatrais gostariam de assistir do Festival POA EmCena, já que eu pretendia comprar os ingressos durante a tarde.
Nunca vamos ao teatro, a não ser no mês de  setembro, quando  grandes espetáculos internacionais e nacionais são trazidos pra cidade, ocasião em que, devido aos fortes patrocínios, os preços subsidiados se tornam acessíveis para grandes parcelas da população. É quando a cultura da arte cênica entra no nosso cardápio, então, como membros típicos da nova classe média emergente no país, nos fartamos assistindo a mais de  uma peça por semana. Minha mulher sugeriu que fosse uma peça em espanhol, mas que não fosse com atores argentinos (que falam muito rápido). Já  meu filho, ressabiado dos castelhanos dos EmCena dos anos anteriores, sugeriu que fosse uma peça nacional,  de mais fácil entendimento.
E assim passou correndo o meio dia de um aposentado.

Odisséia Cotidiana: Os gatos da minha rua


A  manhã de um aposentado passa voando, quando se vê já é hora de sair correndo para se conectar com o restante da família  que continua aprisionada ao mundo do trabalho. Saí caminhando pela  Travessa Pesqueiro e, antes de chegar na esquina com a Rua Barão do Gravataí, do tapume de um terreno baldio, como de costume, saiu um gatão amarelo de rua.
 O bicho foi se esgueirando entre o meio fio da calçada e os carros estacionados, enquanto miava com veemência pedindo ração. Na quadra há vários vizinhos alimentadores dos gatos de rua: naturalmente que os felinos reconhecem de longe os humanos dos quais podem se aproximar amistosamente, e de quais é melhor retornar correndo para a fresta do tapume e se abrigar no matagal do terreno baldio, onde vivem vários gatos ariscos.
 É curioso como os cães de rua desapareceram  do bairro (será que de toda a cidade?), sem predadores os gatos estão tomando conta do pedaço. Quem é da vizinhança e do grupo dos amistosos, de tanto transitar e lidar com os gatos de rua, acaba também lhes reconhecendo  e atribuindo-lhes nomes específicos, geralmente em função da pelagem de cada um: o ruivo, o chumbinho, o malhado frajola (preto e branco)...
Os gatos, como os pivetes de rua, também têm suas gangues e um território que dominam. Do outro lado da Rua Barão do Gravataí o território é dominado por outra turma de gatos, também criados soltos mas com residência fixa e alimentação regular fornecida pelo protetor deles.  Mesmo sendo parte do grupo dos humanos amistosos com as duas turmas de gatos, tenho mais convívio com os gatos da Barão, que vivem no pátio dos boxes de estacionamento de aluguel, onde eu guardo o meu carro e para onde me dirigi.
A população de felinos ali é variável, seguidamente somem alguns, outros morrem atropelados (eu próprio tenho uma morte nas costas, atropelei um filhote inexperiente) e alguns, mas raramente, morrem por velhice.
 Em uma década estacionando o meu carro no território destes felinos, acompanhei várias gerações de crias das crias dos mais antigos, até que recentemente, todas as fêmeas foram submetidas à cirurgia de esterilização e os gatos foram castrados para ficarem mais sossegados. Desde então a população do território vem se reduzindo drasticamente: de mais de uma dúzia para menos da metade.


                   Talvez por isso mesmo, ocorreu um fenômeno de imigração de uma elemento de uma tribo para a outra, que foi justamente este gatão amarelo que me seguiu a pouco até o outro lado da rua, o Boca Grande (nome que dei por ele ficar sempre miando quando me vê). Decerto, vendo que as condições de vida por lá eram melhores, foi se aquerenciando, insistindo numa aproximação sem aceitar as provocações para brigas com os gatos e os esculachos dos humanos.
 Tanto persistiu o gatão amarelo conversador, o Boca Grande, até que conquistou um espaço nas tigelas de rações sob os telheiros dos boxes dos automóveis; ganhou dupla nacionalidade, sem nunca deixar de ser um estrangeiro hostilizado permanentemente pela gata branca, a matriarca e chefe do clã da Barão.
 Eu sou extorquido pelos gatos de rua da Travessa Pesqueiro, numa espécie de pedágio que tenho que pagar para entrar em casa de noite, ao voltar a pé após deixar o carro e alimentar a turma de gatos da Barão, de modo que mantenho uma reserva técnica de ração, como propina, dentro da caixa de correio junto à grade do portão externo do  meu prédio . Faço como muitas pessoas que carregam sempre algum dinheiro no bolso para terem o que fornecer  aos ladrões em caso de serem assaltados, por serem os gatunos coisas de convivência costumeira. 
 Como eu ia dizendo, a manhã de um aposentado passa voando!...

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ODISSÉIA COTIDIANA

           Este texto é o diário de um dia, um Bloomsday meu. O “Bloomsday” é um feriado comemorado na Irlanda em homenagem ao livro Ulisses, de James Joyce (o mestre em escrever “fluxos de pensamentos”). É o único feriado em todo o mundo dedicado a um livro literário, obra que relata em cerca de mil páginas o que ocorre em apenas um dia na “Odisséia Cotidiana” da vida comum e nada heróica de um Ulisses na homérica modernidade.
          Este texto é um exercício literário joyceano, em que tento registrar minha Odisséia Cotidiana, do que andei fazendo e pensando (com fluxos de pensamentos) num único dia de aposentado, que será publicado aqui no blog em cinco postagens: A Manhã, O Meio Dia, A Tarde, O Entardecer e A Noite.

Odisséia Cotidiana: A Manhã
         São oito horas, tomo café da manhã com leite e nescafé, como pão dormido. Guardo as compras de ontem trazidas em sacolas plásticas do supermercado. Penso: As sacolas estão sendo racionalizadas para um uso consciente: as sacolas servem em reuso para ensacar seletivamente os lixos domésticos: a coleta seletiva possibilita a destinação correta dos dejetos para seus respectivos destinos finais: para a reciclagem ou para o aterro sanitário. Fazer a triagem do lixo é uma postura politicamente correta do cidadão, sujeito que faz a sua parte, mesmo sabendo que o percentual de reciclagem sempre será ínfimo e nunca vai resolver o problema da poluição do planeta e da degradação das condições de vida para as próximas gerações. Seguimos em nossa odisséia diária velejando sem leme rumo ao suicídio coletivo da espécie, e seguimos para o Apocalipse sem parar de mamar por um momento o leite longa vida das tetas de tetra-pack (com uma camada de alumínio).
         Lixo eletrônico: anteontem pifou o meu aparelho de DVD-Player, trancou com o filme “A Doce Vida” de Federico Fellini dentro do equipamento. Ainda bem que a pane foi depois de eu assistir ao clássico filme em preto e branco: estou preenchendo as lacunas deixadas pela pobreza na minha formação cultural. É sempre assim, dizem, desgraça nunca vem sozinha: ontem foi a vez do aparelho de TV da cozinha se apagar de vez, morte súbita. Tudo tem  uma vida útil limitada, mas antes de desovarmos nossos velhos queridos como sucatas, temos que consultar o diagnóstico dos especialistas. Velhice não é o fim, mas começa a dar defeito com mais freqüência por estarmos cada vez mais próximos do vencimento da nossa vida útil: e pra lá vamos!
No espelho embaciado do banheiro me vejo dando banho no meu corpo e não me reconheço nele: nem no corpo nem no espelho: ele é meu corpo, mas eu não sou ele. O corpo humano é uma máquina muito bem bolada,  porém também sujeita à manutenção e concertos e à desova como lixo orgânico em cerimoniais metafísicos quando termina a sua vida útil. Retiro do ralo do box do chuveiro  os cabelos caídos que já fazem falta na cabeça: corto feito um gramado os cabelos do rosto com barbeador: aparo com uma tesourinha os cabelos das orelhas e das narinas, que são como aranhas saindo das tocas. Envolvo aquele corpo do espelho, com suas regiões de flacidez e rugosidades em excesso, em roupagens socialmente disfarçáveis, feito uma barata kafkiana  metamorfoseada em humano,  para podermos sair pelas ruas sabendo o óbvio ululante: que toda a nudez será castigada com a velhice.
Sentei  diante do computador e, enquanto se processa sua lenta inicialização após ligado, fui revisando os assuntos pendentes espalhados em inúmeros  bilhetes sobre a mesa: escrever texto para o blog Diário de Um Aposentando sobre... postar tal poema no blog Brechó de Poemas, digitar os textos antigos que ainda estão manuscritos, reeditar crônicas aproveitáveis para divulgação online, aprontar o blog de Resenhas  & Resumos & Sinopses, editar a versão impressa do livro de poemas do recém encerrado blog ELOS...Acessar o Facebook  e atualizar o meu mural com uma matéria do Paulo Coelho reduzindo o Ulisses a um tuíte...Cruzes, quantos emails: preciso dedicar mais tempo para ler meu correio eletrônico!...Estudar as Cinco Sabedorias Budistas contidas no mantra “Om ah hum benza guru pema sidhi hum”...Fazer matrícula na UFRGS em Teoria da Literatura...Pronto, ufa!, o Windows finalmente concluiu sua inicialização me dando boas vindas: posso simplesmente abrir um novo arquivo de Word e digitar este texto precisamente sobre este momento deste meu dia de Ulisses, deixando todas as pendências continuarem pendentes e se avolumando com mais esta que possivelmente também não resultará concluída tão cedo.
Como recomendava Hegel, uma pessoa tem que ler um jornal diariamente. Nada melhor para cumprir este ritual intelectual do que agregar a  ele um rito tribal: ler jornal tomando chimarrão. Desci até a entrada do prédio e peguei o jornal na caixa de correspondência, subi e fiz o mate: me parei a matear lendo as notícias. Não existe um jornal bom no país, logo não estou satisfeito com o jornal que leio todos os dias, especialmente depois que ficou vinculado à Rede Record da Igreja Universal (do Bispo Macedo!). O Correio do Povo só tem de bom mesmo  o seu formato enxuto de tablóide  com notícias curtas e dois colunistas, um colunista diário e local, que é o Juremir Machado, e o Elio Gaspari, que é um colunista semanal  de fora do estado. Minha caixa de correspondência do condomínio não comporta uma edição por assinatura da ZH, procuro ler apenas seus cadernos especiais. O jornal O Sul surgiu como uma esperança de fazer um meio termo na aldeia, mas são muitos colunistas inexpressivos e muitas fotos pra pouco texto. No final, de qualquer jornal não fica nada senão a certeza de que a loucura geral continua se agravando, mas na boca fica o amargo prazeroso da erva mate nos  aquecendo culturalmente por dentro. A manhã de um aposentado passa voando!...

Uma Categoria em Extinção

              Para completar o quadro da minha sala de trabalho, registro que somos três engenheiros homens e mais a engenheira Catarina Maria Reina Cánovas, numa sala de 21 m2. Somadas, nossas idades totalizam 235 anos, mais de dois séculos, o que perfaz uma média de 59 anos por cada barnabé! A Catarina é um caso à parte, pois de há muito já completou seu tempo de serviço (há mais de dez anos), mas não quer se aposentar. Quando todos nós, colegas de sala, éramos ainda estudantes de engenharia, ela já exercia o ofício de engenheira elétrica com pioneirismo na empresa.
           Ainda hoje ela é, com sua entrega e dedicação ao serviço, uma referência, um estímulo  e também uma cobrança permanente para que mantenhamos alto desempenho, sem nunca nos deixar cair num ritmo  de trabalho característico de “aposentandos” em final de carreira. Definitivamente a Catarina, uma workaholic, só irá se aposentar pela compulsória, isto é, aos 70 anos de idade, o que só deverá acontecer daqui a quatro anos...quando então a sala será extinta com os seus dinossauros.
A carreira do funcionalismo público municipal é ridícula, consiste em “avanços” de qüinqüênios, que acresce 3%, e nas chamadas mudanças de letras de A até D, processo que se tornou um funil por onde poucos passam de uma letra pra outra, para se obter um acréscimo de mais 5% no básico do salário. Como todos os membros da sala já atingiram o topo da carreira, a letra D, somos tidos como os Dinossauros.

Estamos sentindo realmente a sensação de sermos uma espécie que está sendo caçada tendo em vista a sua extinção deliberada, com forte pressão internacional para privatização do setor público, na era FHC, e atualmente, na era Lula, através da terceirização ou das chamadas participações público-privada (PPPs).
Faz muito tempo que já não se realizam concursos públicos, e dado o envelhecimento do quadro funcional, que já faz fila e se aglomera na passagem pela roleta da porta de saída para aposentadoria, a tendência é que cada área de atividade do funcionalismo público vá entrando em extinção e sendo terceirizada, na medida que vá vagando seus cargos. Tudo gradativamente, sem alardes, uma extinção de uma categoria de forma indolor, como em câmeras de gás, e difundida em comícios da esquerda e da direita como uma cura homeopática das mazelas da nação.


(Remake de texto escrito em dezembro/2009)


Saudável Saudade no blog: BRECHÓ DE POEMAS, entre aqui!

PAIXÃO NACIONAL: NINA CONTRA CARMINHA!

         Eu andava procurando um mote para escrever uma crônica sobre como as novelas nos pescam para a sua rede de fiéis telespectadores, por mais que se resista, depois de beliscarmos  o anzol das chamadas anunciando cenas dos próximos capítulos no horário nobre do Jornal Nacional. Da atual novela global, Avenida Brasil,  assisti aos dois primeiros capítulos (que sempre são especiais e funcionam como iscas) e conscientemente me libertei do anzol. Mas minha autonomia noveleira durou apenas os primeiros meses, logo acabei caindo definitivamente na rede quando esquentou o jogo de rato e gato das duas protagonistas, Nina e Carminha.
Agora cativo, ao saber que a trama vai se alongar até o mês de outubro, fico me debatendo como um dependente químico, só em pensar que deveria entrar em abstenção deste vício de gastar tempo  vendo TV. Mais uma vez me encontro jurando e fazendo promessas que eu não caio de novo nesta teia das novelas das nove, sequer vou lamber as iscas...
           Então, eis que o mote procurado pra esse tema surgiu do maior fomentador cultural portoalegrense, o qual qualificou com tantos argumentos a Avenida Brasil, que acabou me confortando que foi por uma  boa causa a minha recente recaída novelística. Tanto que só me restou fazer esta introdução do assunto e, agradecido ao autor, transcrever  literalmente alguns trechos da sua matéria publicada no Caderno de Cultura da ZH (18/08/2012), sob o título “Paixão Nacional – A Vingança como Mote”:
Há muitos anos a televisão brasileira não apresentava uma novela como Avenida Brasil. O gênero apresentava inegáveis mostras de exaustão dramatúrgica, pela redundância de enredos previsíveis e fórmulas desgastadas pelo excesso de uso. Mas só espectadores muito preconceituosos não reconhecerão as novidades bem-vindas da trama escrita por João Emanuel Carneiro. Avenida Brasil mantém o espectador em tensão permanente diante do televisor.
Avenida Brasil tem um enredo cheio de som e fúria, como uma boa peça shakespeariana, em que o ódio move as ações inusitadas dos principais personagens. A vingança é o elemento central da novela, o sentimento preponderante, o mote do enredo. O ajuste de contas entre Nina/Rita (Débora Falabella), a órfã abandonada num lixão, e a madrasta, Carminha (Adriana Esteves), galvaniza todas as atenções. Os amores que entrelaçam seus personagens não têm, nem de longe, a força arrebatadora do duelo travado por ambas.
Como num bom romance policial, as duas são dissimuladas e inteligentes e apostam todas as fichas em um jogo arriscado e perigoso. Nunca se viu na história da televisão brasileira uma “mocinha” como Nina. Rancorosa e vingativa, ela é capaz de gestos tresloucados. Nina relega seu sentimento amoroso a um segundo plano, incapaz de abandonar a pulsão vingativa que lhe dá razão para existir. Amor e serenidade, somente depois de crucificar, bem crucificada, a megera Carminha.
As regras estão invertidas. As cartas estão embaralhadas. Muitas vezes, há mais humanidade na vilã do que na heroína. O público não sabe para quem torcer efetivamente. No fundo, parte significativa da audiência torce por Carminha. Muito se deve ao excepcional trabalho da atriz, no melhor papel de sua carreira. O mesmo se pode dizer de Débora Falabella, perfeita ao encarnar as contradições oscilantes da mais antipática das heroínas já vistas em nossa televisão.
Nina/Rita diz que quer vingar os inegáveis maus tratados sofridos desde a infância, mas sua justiça é embasada em gestos de crueldade dignos de uma psicopata. Carminha encarna a maldade absoluta e indefensável e, mesmo assim, desperta simpatia e curiosidade. Fundamentada na excelência das duas interpretações realistas, que fogem de caricaturas infantilizadas, há cenas de uma densidade raramente alcançada na televisão brasileira.
Outro acerto absoluto de Avenida Brasil foi o de colocar o futebol como instrumento de ascensão social. O grande personagem positivo da novela, e isso soa como outra novidade, é um homem, e não uma mulher. Igualmente bem interpretado por Murilo Benício, o ex-jogador Tufão já tem assegurado seu lugar como personagem inesquecível da teledramaturgia nacional. Boa praça, decente, marrento na medida, vive sua vidinha com humor e obstinação.
As canções popularescas poderiam ser contrabalançadas com músicas e intérpretes de melhor qualidade. É muito “oi oi oi”, “ai ai ai” e “eu quero tchu” de uma vez só. Marisa Monte canta uma canção cujos versos confessam explicitamente “Hoje eu não saio não, eu quero ver televisão”.
Melhor que a maioria das peças e dos filmes oferecidos atualmente ao público brasileiro, Avenida Brasil encontrou sua perfeita tradução no mencionado refrão. A novela de João Emanuel Carneiro vai deixar saudades. - Texto de LUCIANO ALABARSE DIRETOR DE TEATRO E COORDENADOR DO PORTO ALEGRE EM CENA.
Ps.: Eu não teria ”bagagem cultural” pra embasar  tantos elogios, embora eu já tenha feito  aqui no blog elogios para a novela “A Vida da Gente” (aquela ambientada em Porto Alegre), mas tenho "aquilo roxo" e bala na agulha o suficiente para compartilhar publicamente este gosto nada cult pelas paixões nacionais: futebol e novela (Nem sempre nesta ordem!).

O CABALÍSTICO NÚMERO 95

        Hoje um dos meus colegas de cela está fazendo aniversário, comemorando 56 anos de idade. Mais do que a pirâmide etária brasileira que já acusa uma  acelerada tendência ao envelhecimento, o quadro funcional do órgão público em que trabalho está ficando predominantemente grisalho e cinquentenário.
O assunto de cada festinha de aniversário, portanto, gira em torno  das perspectivas relativas aos critérios de aposentadoria. A pergunta usual agora é a seguinte: Quanto soma a nova idade e o tempo de serviço do aniversariante?
Após as sucessivas “Reformas da Previdência”, implantadas inicialmente pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, que passou a exigir a idade mínima de 53 anos, seguida pela do Presidente Lula (emendada com a PEC do Senador Paim), que estabeleceu a idade mínima para aposentadoria em 60 anos, criou-se  esta numerologia.
Trata-se de um processo de transição que exige como critério para aposentadoria que a soma da idade e do tempo de serviço seja igual a um número cabalístico: 95 para os homens e 85 para as mulheres.
          Atualmente estou somando 93, portanto no ano que vem, com mais um ano de idade e completando mais um ano de tempo de serviço, fecho os 95 e posso sair pra nova etapa da vida de aposentado, sem prejuízo dos meus vencimentos.

(Remake de texto postado em novembro/2009)

 
Caro leitor do Diário, leia também o poema Faces da Lua no blog:

LER LIVROS: AS OLIMPÍADAS DE UM APOSENTADO

              Em plena Olimpíadas de  Londres de 2012, além de poder assistir de manhã, de tarde e de noite as disputas na TV a cabo, e graças à greve da UFRGS que propiciou um mês de agosto sem aulas, consegui bater o meu próprio recorde: acabo de galgar a leitura da centésima página do livro Ulisses de James Joyce, após várias tentativas abortadas desta travessia. Como o ginasta Diego Hipólito, eu sempre amarelava e não conseguia concluir esta prova de fogo que é ler o Ulisses, livro que faz parte da minha “Lista de 100 coisas para fazer na aposentadoria”. Desde que comprei o volume  da 7ª edição, em meados da década de 1990, com a clássica tradução de Antônio Houaiss, a cada nova olimpíada eu voltava a testar a minha capacidade de abstração na leitura com obstáculos da obra-prima de Joyce. Diz uma lenda difundida na internet que ninguém conseguiu ler de fato todo o livro; seja como for, os relatos de desistências definitivas e de reincidentes abandonos, como o meu caso, são numerosos.
             
             O principal obstáculo é  que, dizem,  sequer há uma história sendo contada no livro. O texto é desenvolvido por  narradores diferentes, sem linearidade, que mudam de repente e não se sabe quem está falando pra quem, e seguidamente nem se fica sabendo que assunto está sendo tratado durante várias páginas. Exige, portanto, que o leitor seja um atleta literário com fôlego para se manter por longo tempo velejando (como o Robert Scheidt, velejador com cinco medalhas olímpicas conquistadas), sobre os fluxos e refluxos das palavras do autor, muitas inventadas pelo próprio e reinventadas pelo tradutor.
            Desta vez, porém, creio ter atingido a maturidade intelectual suficiente para segurar a onda por toda a travessia, não como uma árdua leitura, e sim com a alegria de um esportista que sente prazer em praticar o esporte de leitura literária: ler por puro lazer, com paciência  de maratonista budista. Mas confesso que a coisa já não ia bem no final da primeira parte do livro, eu começava a esmorecer lá pela página 42, como prenúncio de um novo naufrágio, o que a esta altura da vida seria como sofrer um ippon da judoca Sarah Menezes, medalha de ouro em Londres. Então comecei a praticar o método de leitura em voz alta, interpretando com entonações orais as frases e soletrando as palavras agrupadas com neologismos. A partir daí sim, ganhei um novo fôlego e atingi o inédito marco lido de um quinto do livro.
Estou, pois, otimista que desta vez vou conquistar a medalha de ouro ao chegar até a última frase do clássico dos clássicos moderno, feito o ginasta Arthur Zanetti surpreendendo agarrado em suas argolas...Uau!, que susto: Fui espiar agora qual era a última frase do livro, para transcrever aqui como a “linha de chegada”,  e voltei a levar medo da maratona de leitura ao descobrir que a última frase, a  rigor, se estende por 33 páginas, sem vírgulas e sem pontos. A reta de chegada parece ficar numa montanha íngreme de difícil alpinismo até para a leitura em voz alta. Espero que durante a longa jornada o leitor amador vá aprendendo a  dominar as armadilhas do universo joyceano, ficando apto para a escalada da leitura final que  consagra o recebimento da bandeirada de conquista do seu Olimpo.
Todavia, para não perder o foco da linha de chegada na longínqua última página do livro, decidi adotar o didático procedimento de fazer uma “Ficha de leitura do livro Ulisses de James Joyce”, para me garantir que estou acompanhando os malucos fluxos psicológicos de Joyce, que em Ulisses são verdadeiros “fluxos alucinógenos”. Toda atenção é pouca, haja visto todo o cuidado da atleta Fabiana Murer com suas varas de saltar que, mesmo assim, não foi o suficiente para ela se classificar para as finais. Por isso vou ir cravando referências pela quilometragem do caminho, escrevendo notas no marcador de páginas e apelando para destacar trechos do livro com caneta marca-texto,  de modo que possa sempre recapitular quem é quem  e por onde andaram e andam, pelo menos os personagens que eu identificar como sendo os principais do enredo sem trama, ou do drama sem enredo.
Mas, a estas alturas, ao contrário de Maurren Maggi  (campeã olímpica de Pequim em salto à distância que “decepcionou” em Londres), começo a sentir firmeza na minha atual jornada olímpica pela epopéia do Ulisses, pois já estou dando boas risadas com o peculiar senso de humor do Joyce. Assim, espero concluir a leitura do livro Ulisses de James Joyce antes da próxima Olimpíadas, que será realizada em 2016 no Brasil.
 Não vou fazer como a seleção brasileira de futebol do Neymar, Oscar e Damião, que repetiu as várias tentativas frustradas do escrete canarinho para conquistar o ouro em Londres, adiando a esperança de realização do feito olímpico como um tema para fazer em casa. Na Olimpíadas brasileira quero já estar com a medalha de ouro do Ulisses no meu peito (como as meninas do vôlei)  e quero estar conquistando a leitura de Rayuela de Julio Cortázar, no original em espanhol, livro que igualmente faz parte da minha “Lista de 100 coisas para fazer na aposentadoria” e que também está pendente com várias tentativas e desistências há quase vinte anos, ou seja, há várias Olimpíadas.

Caro leitor do Diário, olimpíadas também dá poesia, leia o poema "O Último do Pódio" no blog:

UM SONHO DE LIBERDADE

              Domingo, dia 15 de novembro de 2009, ao abrir meu correio eletrônico no computador da empresa onde trabalho encontrei um e-mail de um amigo aposentado: E daí Xirú? Essa moleza vai acabar no ano que vem. Vai dar saudade dos plantões de domingo.
             Minha resposta, também por e-mail, foi imediata e determinada, como exigia a ocasião. Era o dia da proclamação da república e às margens do riacho da Ipiranga, como quem desembainha a espada esclamei: Este será o meu último plantão! A partir de agora vou ir cortando os vínculos e jogando as tralhas ao mar, durante a travessia de 2010, para romper com as dependências financeiras na hora de sair para o “MEU SONHO DE LIBERDADE”.

               Diferente do filme Um sonho de Liberdade (com Morgan Freeman), em que após cinqüenta anos de reclusão os presidiários têm medo de sair deste mundo que eles já dominam e onde são respeitados; mas semelhante ao protagonista do filme que nunca desisitiu de sua libertação, estou conseguindo cumprir minha pena, sem enlouquecer, cavando pacienciosamente um túnel para a liberdade integral do meu tempo e mantendo acesa a esperança de que o melhor da vida ainda está por vir.
             Depois de cumprir 38 anos de sentença de trabalhos forçados em regime semi-aberto, vou me aposentar e quero sentir todo o tédio do ócio fumado e prensado direto no cérebro, vou adorar a saudade do presídio! Espere por mim...abraço meu irmão!


Somos como as garças
Que voam para o Dmae
Para buscar o alimento
Nas águas de seus decantadores
E depois migrar com o vento...
            Mas sem suas asas, meros trabalhadores
            Decantamos em seu colo Dmãe
            Como seus fiéis filhos servidores
            Até migrarmos envelhecidos pelo tempo
            Levados na viagem sem volta no vento.

(remake de postagens iniciais deste blog)