A Voz da Experiência dos Aposentados no Previmpa

      Gerou grandes expectativas a ideia inicial da direção do Previmpa de destinar um espaço físico na nova sede da entidade com o objetivo de aprofundar os vínculos com os aposentados, e de construir este núcleo buscando a participação deles através de encontros no Projeto Voz da Experiência: Diálogos e Saberes entre Aposentados.
       Para um universo de cerca de 8 mil inativos, todos dispersos sem saberem uns dos outros depois de uma vida de trabalho em conjunto por muitos anos, era previsível que tantas demandas reprimidas de reencontros gerassem enormes expectativas para a construção de um espaço de convivência e interação destinado aos aposentados.
     Já no primeiro encontro, de “Acolhimento, Apresentação e Levantamento das Expectativas”, se percebia o “brilho nos olhos de alguns ao reverem antigos colegas de trabalho”. De um modo geral todos colocaram que esperavam que o espaço dos aposentados na nova sede do Previmpa propicie atividades ocupacionais, lúdicas, artísticas e sobre seus direitos sociais; bem como encontros entre eles e trabalhos de apoio aos aposentados deprimidos, aos inativos que têm tido dificuldade em se adaptar afastados da convivência dos seus colegas de serviço.
      A questão que se coloca para a continuidade destes diálogos da “voz da experiência” com a “voz dos gestores do Previmpa”, primeiro é que tipo de espaço físico estão pensando destinar. Como foi mencionado nos encontros, o costumeiro das associações é fornecer uma sala minúscula para os aposentados e que eles “se virem nos 30m2”. Outra questão é que tipo de espaço gerencial vão disponibilizar, ou seja, se vão manter uma equipe técnica, como a que está desenvolvendo este projeto, para dar apoio e fornecer os meios de implementação das propostas acolhidas no grupo dos aposentados.  
      Mas, como o estágio atual do projeto é o de “solte seus sonhos”, que sonhar não custa nada, idealizamos as seguintes expectativas:
- Um espaço físico amplo, gerenciado juntamente com os técnicos do Previmpa por um grupo de aposentados eleito em encontros presenciais e com comissões de atividades artísticas e sociais com palestras semelhantes as do PPA; bem como de inclusão digital na internet disponibilizando computadores e treinamentos específicos para a terceira idade.
- Um espaço físico que funcione também como de encontros ocasionais, ou seja, que seja atrativo de se estar, para que se tenha aonde ir quando se for no centro da cidade. Para tanto, idealizo um espaço não isolado e confinado, pelo contrário, que poderia conter a cafeteria para todo prédio e seus funcionários, mas que disponibilizasse recantos com estantes de livros e revistas (mediante campanhas de doações), jogos de mesas (xadrez, dama, dominó, etc.).
- O futuro Grupo deverá promover encontros de aposentados por secretarias e departamentos, usando a estrutura de informática do Previmpa para divulgar e dispor de verbas para comes e bebes e animações para agregar os inativos.
- O futuro Grupo poderá promover megas eventos destinados a todos os aposentados, como o realizado pelo próprio Previmpa no Araújo Viana com o Guri de Uruguaiana.

Pessoalmente espero que resulte destes diálogos um grupo de trabalho, reunindo aposentados e técnicos do Previmpa, visando sistematizar e apresentar à diretoria da entidade não só as expectativas e sonhos construídos coletivamente nestes encontros, mas também para monitorar, desde já, a definição e a ocupação do espaço físico que será destinado aos aposentados. Queremos construir realmente juntos este espaço de convivência e interação na futura sede.

Histórico e Riscos das Aposentadorias no Previmpa

Mais uma vez se confirmou o meu acerto em me filiar, às vésperas de me aposentar, na Associação dos Técnicos Científicos (Astec), para me manter informado das questões da categoria dos municipários. Desta vez fui convidado a participar de um oportuno seminário promovido pela associação, O REGIME PRÓPRIO DE PREVIDÊNCIA EM PORTO ALEGRE, realizado dia 16/julho/2015. Para um aposentado nada é mais oportuno do que conhecer o que é e como funciona o órgão que ficou responsável pelos pagamentos dos seus proventos pelo resto da vida, sobretudo por estar sempre com um pé atrás, com medo que o Previmpa acabe antes que o aposentado. Tudo é muito recente, essa realidade de Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) da Prefeitura se configurou em 2001/2002, em decorrência da promulgação da Constituição de 1998. A criação dos RPPS visava estruturar a responsabilidade fiscal dos municípios e Estados, cujos gastos com pessoal ativos e inativos (e pensionistas) se tornara, no discurso oficial,  um descalabro insustentável para o dinheiro público.
Minha geração é do tempo que tudo ficava na conta patronal da Prefeitura que, em contrapartida deste ônus, tinha o bônus de não precisar recolher recursos permanentemente para um fundo previdenciário, podendo assim seguir gastando sem se preocupar com o futuro desta bola de neve que crescia com o tempo. O Montepio dos Funcionários Municipais recolhia 4,75% compulsoriamente de todos os barnabés e se encarregava de pagar 60% do salário do falecido como pensão aos dependentes, enquanto que o pagamento da aposentadoria aos inativos (ainda vivos) era feito exclusivamente às custas dos cofres públicos. Durante o processo de transição daquele sistema antigo para este novo, com a criação do Previmpa que passou a pagar 100% como pensão, eu atuei como protagonista na Comissão de Intervenção que deu o tiro de misericórdia no Montepio em 1994, desmascarando com auditorias as falcatruas e incompetências gerenciais e administrativas que ocorriam naquela entidade há 20 anos atrás...Cruzes, o tempo voou!
Com o advento do Regime Próprio através do Previmpa, houve a chamada “segregação de massas”, dividindo o quadro funcional em dois grupos: o pessoal ativo mais antigo (ingressos até 2001, que hoje totalizam cerca de 12.000) foram classificados como em Regime de Partição Simples, e o pessoal ativo mais jovem (ingressos após 2001, que hoje totalizam cerca de 6.000) foram classificados como em Regime de Capitalização. Os jovens ficam sujeitos a um “regime solidário”, onde todos pagam e todos são responsáveis pelo uso adequado dos recursos “capitalizados” no Fundo de Previdência, para que este possa garantir os benefícios (sem paridade em relação aos ativos) previstos a longo prazo. Já o pessoal mais antigo, por não ter havido contribuição patronal anterior a 2001, permanece tendo o respaldo complementar dos cofres públicos municipais para o pagamento dos seus proventos e benefícios com paridade. Mas a discussão das recorrentes reformas de previdências, sempre em pauta no Congresso Nacional, é de que para um Regime Próprio de Previdência Social ser eficiente precisaria, segundo cálculos atuariais, ter uma relação de 4 ativos para 1 inativo. Acontece que o Previmpa, com 16.700 ativos e 8.700 inativos, estaria com uma relação de apenas 2 ativos para cada aposentado. Será que já disparou o alarme de perigo para o futuro das aposentadorias e pensões da classe municipária porto-alegrense?!?...
Por enquanto, como dizia o Chaves no Chapolin Colorado, “não criemos pânico”, pois até 2024 o Previmpa continuará arrecadando mais do que gasta, ano em que se aposentarão os últimos servidores antigos, espécie em extinção de ativos do Regime de Partição Simples que contam com o suporte da Prefeitura. Até lá os cofres do Previmpa estarão acumulando recursos no seu Fundo de Previdência, que já contabiliza atualmente cerca de 1 bilhão de reais em aplicações financeiras, sendo possível que chegue aos 2 bilhões nos próximos dez anos. É o período de formação da necessária gordura de reserva pra queimar quando chegar o tempo de vacas magras, o período de despesas maiores que as receitas que se anunciam para depois de 2024. Para profissionalizar a Gestão de Fundos,  o Previmpa constituiu um Comitê de Investimentos (composto por  economistas, atuário, advogado e conselheiros) que têm por meta atuarial atingir um rendimento anual de IPCA + 6% nas aplicações dos recursos. Meta que tem sido atingida, em que pese a dificuldade crescente em função do agravamento da atual crise econômica e política do país. De qualquer maneira é meio assustador termos que incorporar essas atividades de capitalistas especuladores do mercado financeiro, atribuição de alto risco para se obter a rentabilidade das aplicações dos investimentos do nosso Fundo Previdenciário do Previmpa. Fundo este que é feito da contribuição solidária de todos, em cuja gestão financeira corremos o risco de falharmos por incompetência gerencial na missão de garantirmos as aposentadorias e pensões das atuais e das futuras gerações da família municipária. Portanto, especialmente os jovens municipários, fiquem espertos e de olho no Previmpa!
A propósito, no seminário da Astec o coordenador de investimentos e aplicações financeiras do Fundo Previdenciário do IPERGS, relatando a Experiência do IPE/RS,  alertou que os fundos de previdências não têm blindagem contra prefeitos ou governadores aventureiros que queiram botar a mão na grana os extinguindo. Informou também que lá no IPERGS eles estão fazendo aplicações, não só em papéis especulativos do mercado financeiro, mas também na economia real (tipo construção de um hotel no Rio de Janeiro e duplicação de uma estrada Estadual em troca de 100 anos de arrecadação do pedágio). Tendência esta, de aplicações no mercado real,  que o Comitê de Investimentos do Previmpa também manifestou interesse em começar a desenvolver, ou seja, de investir em empresas ou projetos onde,  através de seus respectivos conselhos e diretorias, os membros do Comitê possam interferir diretamente na gestão dos recursos.  Por outro lado, o próprio presidente atual do Previmpa manifestou sua preocupação com discussões que permeiam o Congresso Nacional e que se configuram como possíveis reformas previdenciárias iminentes na esfera pública.  Uma questão é a que se refere ao chamado “Teto Previdenciário de Aposentadorias” (hoje em R$ 4.600,00), que existe no Regime Geral do INSS  e que, mais cedo ou mais tarde, também deverá ser inserido nos regimes próprios dos municípios e Estados para acabar com a “integralidade” salarial,  acabar com o benefício dos servidores de se aposentarem ganhando o valor do último contracheque.    Portanto, especialmente os que estão em contagem regressiva para se aposentar, fiquem ligados que os políticos do legislativo ou do executivo podem puxar o teu tapete na última hora!
Outra questão bastante recorrente é a pensão por morte, que a Medida Provisória 664 da Presidenta Dilma recentemente reformatou no Regime Geral de Previdência. Agora é exigido dois anos de casamento (ou união estável), e a pensão vitalícia somente será concedida para cônjuges a partir de 44 anos de idade. A medida praticamente acabou com o benefício de pensão por morte para cônjuges jovens. Estabeleceu uma escala gradativa que inicia com apenas três anos de pensão por morte para cônjuges de 21 anos de idade e, que vai sendo acrescido de mais três anos por grupos de faixas etárias, até o máximo de 15 anos de pensão para cônjuges de 39 a 43 anos de idade. O mais intrigante é que o valor das pensões passou a ser de 60% do salário do falecido para cônjuges sem filhos dependentes e mais 10% por cada filho dependente, até o máximo de 100%.  Digo intrigante porque 60% era justamente o valor das pensões que o Montepio pagava antigamente, e o atual presidente do Previmpa aconselha que discutamos esta problemática internamente na categoria municipária, para não sermos pegos de surpresa por alguma nova lei. Portanto, especialmente os velhos inativos, fiquem vivos que o sustento da viúva não está garantido para sempre. Também os viúvos que buscam consolos “viagrosos” em mulheres jovens, fazendo “casamentos de enfermaria” com suas enfermeiras no leito da morte, fiquem vivos que a pensão da viuvinha pode não rolar!




OS SONHOS FRUSTRADOS DE DOIS APOSENTADOS DO DMAE


Entre os meus guardados trazidos no meu kit de aposentando, encontrei uma preciosidade simbólica, uma folha do Boletim Interno do Departamento, datado de novembro/2002,  em que se anunciava a “realização do sonho dos funcionários”, a construção de um campo de futebol do Dmae. No Boletim o Carlinhos Comelli, grande desportista e querido por todos os colegas, é entrevistado na empolgação do início da terraplenagem do campo no terreno da ETE Navegantes, junto ao Humaitá e perto do que hoje é a Arena do Grêmio. Dava gosto de ver os planos que ele fazia para o uso do campo em campeonatos e peladas internas das divisões do Dmae. A obra dos sonhos dos servidores avançou mesmo, chegou a ser colocada a grama e creio que até as goleiras foram instaladas...mas não chegou haver a esperada festiva inauguração.
De fato o sonho dmaeano existia e persiste, pois alguns departamentos da Prefeitura de Porto Alegre têm centros de esportes e lazer para os seus funcionários, tais como o Ginásio com quadra de Futebol de salão do Demhab e a invejável sede com salão de festas e campos de “futebol sete” da SMOV, perto do Veleiros do Sul. Paradoxalmente o Dmae, chamado de “primo rico” dos órgãos municipais, nunca conseguiu nenhuma coisa nem outra, nem ginásio coberto e muito menos sede social para oferecer aos seus servidores, tem apenas um campinho em cima do reservatório de água Catumbi.  Pois o artilheiro Carlinhos, que recebeu cartão verde na época para “chutar e cabecear e fazer o golaço”, se aposentou frustrado sem realizar o sonho de inaugurar o campo Todeskão.

Conforme relata a reportagem, o Diretor Geral na ocasião era o Todeschini, daí o apelido dado ao campo de Todeskão. Acontece que, como ele estava bancando a obra com um projeto “feito nas coxas”, antes de construir os prometidos vestiários, banheiros e churrasqueiras no entorno do campo, a Direção teve que abandonar a obra, caracterizando mais um “pequeno” desperdício do dinheiro público. Como o Carlinhos, eu também me aposentei frustrado por causa do Todeschini, não pelo campo inacabado devido à sua localização inadequada, ao lado dos tanques de decantação dos esgotos cloacais da ETE Navegantes. Minha frustração foi com a ascendência relâmpago de um obscuro petista vindo do DEP que assumiu o DMAE em 2001 e, durante a campanha eleitoral de 2004, conseguiu o feito inédito de colocar cartazes em, literalmente,  todos os postes do município, sendo dois cartazes por poste (um para cada lado da rua até nas zonas mais rurais), e se eleger como o vereador mais votado daquele pleito. Minha frustração foi como “ex-petista”, que eu já era na época, por perceber que dali pra diante podia se esperar de tudo daquele partido que dediquei muitos anos da minha vida construindo. Mas "nem que a vaca tussa" eu imaginaria que os "malfeitos" descambariam para o Mensalão e o Petrolão!...
O fato é que o sonho do Carlinhos se realizou mas não se concluiu. O campo de futebol para os servidores do DMAE chegou a existir, mas não foi concluído. A obra foi  interditada por exigência da saúde pública, pois com a estação de esgotos ao lado a grama estaria permanentemente contaminada com coliformes fecais. Por isso,  qualquer arranhão que os atletas sofressem por queda no gramado seria uma fonte de infecção séria e de contágio de doenças graves. O meu sonho também se realizou, a posse em 2003 do Lula Lá, mas não se concluiu pelo contágio da corrupção do poder, grave doença crônica que infecciona o país e frustra os sonhos dos brasileiros.

GREVE CONTRA O EFEITO CASCATA DE PERDAS SALARIAIS


Aposentado não faz greve? Uma ova! Aposentado não vota pela greve em Assembleia Geral, mas faz a greve acontecer participando de alguma maneira na sua construção, pois também irá se beneficiar das conquistas do movimento dos municipários ou sofrer as perdas de sua derrota. Desde a greve anterior, de maio de 2011, contra este mesmo Fortunati, estou fora da ativa do movimento e inativo do trabalho. Minha forma de participação passou a ser a de  fazer o registro e divulgação das bandeiras de lutas da categoria aqui, no blog Diário de Um AposentaNdo.
 Igualzinho como agora, em 2011 os municipários em luta decidiram entrar em greve por tempo indeterminado a partir de meados de maio. Também lá,  mais de 3.000 municipários lotaram o Centro de Eventos do Parque Harmonia e rejeitaram a proposta do governo, que apenas propunha repor a inflação pelo IPCA. Agora tem o agravante de querer parcelar até maio de 2016 o pagamento do reajuste proposto de 8,17% do IPCA.  Com o índice conquistado na greve de 8 dias de 2011, os 7% (0,5% acima da inflação),  eu recuperei parte das perdas pré-aposentadoria no meu salário. Perdas estas devidas à transição de na época estar ainda em licença Aguardando Aposentadoria (LAA) e que deixaram de existir quando saiu a portaria do Previmpa, uma vez que estar oficialmente aposentado implica em passar a pagar a previdência apenas sobre o valor que exceder o teto previdenciário. A propósito, a minha mensagem aos novos aposentaNdos é que fiquem espertos, pois este rito de passagem é cheio de nuanças nebulosas.
Agora, mais uma vez, contra a política salarial deste mesmo prefeito Fortunati, os municipários em luta, novamente com mais de 3.000 municipários lotando o Centro de Eventos do Parque Harmonia, decidiram entrar em greve a partir de 20 de maio de 2015, Greve contra o  Efeito Cascata de Perdas Salariais! O que seja este monstro que vem ameaçando os municipários há vários anos, todo mundo já está careca de saber: os regimes de trabalho (RTI/RST/RDE/RCT) não podem mais incidir sobre os avanços adicionais (de 15% e 25%) e nem sobre as funções gratificadas incorporadas!!! Mas o que nunca ficou muito claro, por sua complexidade, é o conteúdo da proposta bancada pelo SIMPA. Proposta esta que promete matar o monstro do Efeito Cascata sem prejuízo para a categoria e sem ônus algum para a administração do Fortunati. Então, é sobre esta proposta que vou buscar fazer uma contribuição para o movimento, no sentido de tentar fazer uma explanação didática para a categoria desta solução que o prefeito tem se negado a considerar. Negativa esta que só uma greve forte poderá reverter!
A categoria já recusou o remendo provisório sugerido pelo prefeito de conceder um “Abono” para compensar as perdas no atual momento, mas que como sabemos abono não é salário e não é incorporado na aposentadoria. Em contrapartida, vejamos então em detalhes a tal proposta elaborada por atuário colega nosso e apresentada na mesa de negociação pelo SIMPA, que é resultado de um estudo de todas as variáveis salariais para resolver o impasse da decisão judicial, que ainda está sob recurso liminar no STF. São artifícios compensatórios propostos que realmente podem solucionar o imbróglio das perdas salariais de até 30% que o corte do chamado “Efeito Cascata” causará aos municipários. A proposta busca definir compensações salariais para os dois dilemas centrais do corte do efeito cascata: os regimes de trabalho (RTI/RST/RDE/RCT) não podem mais incidir sobre os avanços adicionais (de 15% e 25%) e nem sobre as funções gratificadas incorporadas.
 Primeiro, em relação a exclusão do regime de trabalho sobre os “avanços adicionais de 15% e 25%”, a proposta compensatória do SIMPA prevê que o funcionário, enquanto convocado para o regime especial de trabalho, passaria a ter direito a uma compensação remuneratória em percentual progressivo aplicado sobre o vencimento básico do seu cargo. Esta compensação seria calculada com base numa Tabela Progressiva de Percentuais de Regime de Tempo Integral e Regime de Dedicação Exclusiva (vide abaixo), que é proporcional ao tempo de serviço público do funcionário (RTI/RST progressivo de 50% até 117% e RDE/RCT progressivo de 100% até 235%). Com esta modalidade estabelecida em lei municipal, criando regimes progressivos de trabalho em decorrência do tempo de serviço, morreria o efeito cascata sem causar perdas nem danos para nenhum dos lados, servidores e Fortunati, conforme tabela:
 Em relação ao segundo dilema, o da exclusão da FG/CC incorporada do Adicional de Tempo de Serviço e do Regime Especial de Trabalho,  a proposta elaborada sugere tabelas com a definição dos valores das FG/CC acrescidos de percentuais compensatórios para os respectivos regimes de trabalho. O mecanismo concebido para obter as compensações de forma que todas as remunerações de FG/CC migrem como os mesmos valores atuais foi o de referenciá-las em um único “fator”. Tipo assim, os valores das FG/CC sem adicional para RDE/RCT seriam tomadas como “Fator de Referência” de 100% de cada nível de FG Incorporada, e os valores das FGs incorporadas do respectivo nível para “sem regime” seria de 15% do fator para quem tem adicional de 15%   e de 25% do fator para quem tem adicional de 25%.  Os valores das FGs incorporadas do respectivo nível em RTI/RST seriam de 72,5% do fator para quem tem adicional de 15%   e de 87,5% do fator para quem tem adicional de 25%. – Em RDE/RCT os valores das FGs incorporadas do respectivo nível seriam de 130% do fator para quem tem adicional de 15% e de 150% do fator para quem tem adicional  de 25%. Simples assim e funciona, confira na tabela:  
Assim, com os artifícios desta proposta muito bem articulada, ficaríamos livres do maldito efeito cascata, realizando-se uma solução mágica de não haver perdas salariais para os funcionários nem ônus para a administração do Fortunati. Portanto, fica claro que basta ter vontade política para resolver este imbróglio, o que parece não ser o caso. Pelo contrário, o prefeito parece querer empurrar com a barriga o problema até os “capa-preta” do STF baterem o martelo e decretarem o corte imediato, para que ele cumpra com prazer a sangria de até 30% nos salários dos servidores municipais e ainda com um debochado discurso de algoz inocente, dizendo que estará apenas cumprindo determinação judicial!...

Aposentado não faz greve, mas pode tentar contribuir para o fortalecimento consciente do movimento: participe!

Os Cercos de Lisboa e de Porto Alegre

Após ter lido o livro História do Cerco de Lisboa, de   Saramago (único ganhador do Nobel de Literatura de língua portuguesa), coincidiu de eu ler um artigo de jornal intitulado “O longo cerco: como a capital se tornou, enfim, farroupilha”, escrito pelo escritor gaúcho Marcel Citro. Na ocasião, que também ocorreu a polêmica abordada pelo professor Luis Augusto Fischer, de ser ou não o gauchismo uma “Tradição Inventada” e o Acampamento Farroupilha parecer um “favelão gaudério”, me intrigaram as circunstâncias históricas semelhantes e os diferentes desfechos dos cercos ocorridos nas cidades de Lisboa e de Porto Alegre.
O Cerco de Lisboa, que durou vários meses no ano século XII, integrou a Reconquista cristã da península Ibérica, com a expulsão dos árabes que ocupavam a região por quatro séculos. Cerco este realizado pelas forças de D. Afonso Henriques que realizou a formação do reino de Portugal como uma nova nação. O antecedente histórico do cerco de Porto Alegre era de que, em decorrência dos impostos imperiais sobre o charque, a revolta foi assumindo o ideário progressista de abolição da escravatura e de democracia sob um sistema republicano.
 A Revolução Farroupilha resultou separatista com a proclamação da República Rio-Grandense, em 1836, chefiada por Bento Gonçalves. Lisboa e Porto Alegre foram conquistadas pelos respectivos cercos, sendo que Lisboa foi dominada e se tornou a capital de um novo país; enquanto os portoalegrenses, depois do entrevero da Ponte da Azenha no lendário 20 de setembro de 1835, a cidade sitiada foi dominada pelos revolucionários sitiantes durante nove meses apenas.
Saramago, em sua narrativa sobre o Cerco de Lisboa, objetiva demonstrar a impossibilidade da história total e a subjetividade do historiador, buscando refletir sobre o discurso oficial da história acreditada, acessando outras possibilidades que foram relegadas pelas versões tomadas como canônicas. Introduzindo personagens da “raia miúda”, que não tiveram voz, e transformando as figuras históricas em personagens com suas fraquezas e perversidades, o escritor lusitano procura também esmiuçar as contradições das fontes que fixaram o discurso histórico dos vencedores.
Este é o ponto dos desfechos contraditórios dos cercos de Lisboa e de Porto Alegre. Aqui, noves meses depois, o domínio da cidade pelos revolucionários terminou em vexame: os legalistas imperiais se apossaram do quartel farroupilha, deram o toque de reunir em plena madrugada e, à medida que os farrapos acorriam para atender ao chamado, iam sendo presos, um a um, no quartel. Por estas e por outras, Porto Alegre ganhou o título de “Mui Leal e Valerosa” cidade do governo imperial, ou seja, anti-farroupilha.
 Saramago narra que no cerco de Lisboa a fome tinha se mostrado em sua mais obscena expressão. Já tinham desaparecidos os gatos e cães, e as ratazanas eram perseguidas. De maneira análoga, inconformados com a perda da capital, os farroupilhas organizaram três sítios consecutivos por três anos e meio, visando a retomada da cidade pela fome, pelas armas ou pelas epidemias...Mas os sitiados portoalegrenses venceram os sitiadores da cidade liderados por Bento Gonçalves.


Naturalmente que no romance histórico Saramago trama um caso de triângulo amoroso entre um soldado português heroico e uma galega que acompanhava a guerra para servir de objeto sexual a um cavaleiro em cruzada (como tantos outros mercenários estrangeiros contratados para ajudar na luta contra os árabes, a preço do que pudessem saquear com a vitória). Analogamente, na série de TV “A Casa das Sete Mulheres” ganhou destaque o romance do estrangeiro herói de dois mundos, Giuseppe Garibaldi, o italiano que tentou libertar Roma do poder papal e que, por aqui, se tornou o comandante da marinha farroupilha. Garilbaldi, que andou arrastando asas para a Manuela, sobrinha do Bento Gonçalves, acabou caindo de amor e levando de vento em popa, para lutar e se tornar heroína no Velho Mundo, a catarinense Anita Garibaldi.
O estancieiro Bento Gonçalves, com sua fuga espetacular da prisão, foi o personagem gaúcho de maior destaque na epopeia farroupilha. Porém, foi no romance O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, que se formou o herói literário típico do gauchismo: festeiro que adora pelear numa guerra, bonitão e mulherengo. O Capitão Rodrigo Cambará é o nosso Martin Fierro, gaúcho que se derreteu de amores pela Bibiana, mas sem perder a sua índole  libertária de índio guerreiro que acabou morrendo  jovem de morte matada nas peleias entre Ximangos e Maragatos.
Os anais da história oficial de Portugal registra o chamado “Milagre de Ourique”. Consta, pois, que Dom Afonso Henriques, durante a Batalha em Ourique (cuja vitória foi fundadora do novo país lusitano), teria tido um sonho em que Deus lhe aparecera dizendo que venceria todas as batalhas e que veria Jesus no dia seguinte, como de fato teria ocorrido, comprovando o milagre e caracterizando oficialmente o povo português como eleito por um desígnio divino. Saramago ironiza se não teria sido mais útil Jesus Cristo ter aparecido para os mouros, convertendo-os. Afinal, eles foram massacrados e morreram como infiéis...
Assim como no cerco do rio Tejo, no do rio Guaíba também consta nos anais da história rio-grandense uma espécie de “Milagre da Ressurreição Farroupilha”. Terminada a Guerra Farroupilha, em 1845, com a República Rio-Grandense desfeita, os escravos negros que lutaram dez anos pela causa foram chacinados em Porongos, e o General Bento Gonçalves morreu dois anos depois em total ostracismo político. Contudo, as façanhas e os ideais dos derrotados farroupilhas foram pouco a pouco sendo absorvidos e ressuscitados pelo discurso oficial através da invenção do gauchismo.
 Os vencedores incorporaram as bandeiras dos vencidos, lhes dedicando grandes comemorações e acampamentos campeiros (inclusive ne centro da capital), com direito a desfiles alegóricos em amplos espaços públicos e até a hino: Como a aurora precursora do farol da divindade, foi o Vinte de Setembro o precursor da liberdade... Dos cercos de Lisboa e de Porto Alegre, resultaram povos arraigados em tradições inventadas, cujas crenças fervorosas chegam às raias de uma mitologia religiosa, respectivamente espalhadas  por todos os rincões do Alentejo e do pampa gaúcho. Com o nosso sangue lusitano de açorianos, pelo jeito, como diz uma canção de Chico Buarque: Esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

MEUS CAMINHOS DO CENTRO DE PORTO ALEGRE

(Minha homenagem ao aniversário de 243 anos da cidade)
Roteiro: Travessa Pesqueiro, João Alfredo, Luis Afonso, José do Patrocínio, República, Praia de Belas, Borges de Medeiros, Demétrio Ribeiro, Cipriano Ferreira, Duque de Caxias, João Manoel, Rua da Praia e cais da Usina do Gasômetro.

Quando eu decidi que era hora de comprar a minha morada definitiva, listei os seguintes pré-requisitos como essenciais: apartamento de cobertura, com elevador, dois quartos, box de estacionamento, situado de preferência no bairro Cidade Baixa e, se possível, com vista para o pôr-do-sol do Guaíba. Depois de meses pesquisando os preços do mercado e consultando os pilas na guaiaca, fui eliminando exigências. Fui forçado a decidir que o apartamento de cobertura podia ter um quarto só e ser sem box. Diferente das pessoas que compram casa com terreno, que costumam dizer que compraram seu pedacinho de terra no planeta, eu digo que comprei meu pedacinho de céu. Logo que mudei eu avistava o pôr-do-sol portoalegrense, incluindo trechos das águas do Guaíba: era a realização do meu tão sonhado sonho. Hoje, quase quinze anos depois, às vésperas de terminar o financiamento do imóvel pelo SFH, com o surgimento dos gigantescos edifícios públicos na orla do Parque Harmonia, não visualizo mais nem a chaminé da Usina do Gasômetro e nem aos fogos de artifício do réveillon da festa municipal. Aprendi, com o tempo, que o céu é a única vista que realmente é perene num apartamento de cobertura.
 Costumo dizer que moro a meia hora de caminhada de tudo que mais interessa a um portoalegrense típico: junto a atual zona boêmia na Cidade Baixa, perto do centro, da Usina do Gasômetro, do Parque Marinha, do Shopping Praia de Belas, do Gigante da Beira Rio, do Zaffari Menino Deus, da Azenha, da Redenção e do Bric. Portanto, vivo num círculo de autossuficiência de serviços comerciais e culturais. Gosto de caminhar por todos estes  caminhos da cidade com meia hora de duração para ir, e o mesmo tanto para voltar. A Prefeitura de Porto Alegre tem um programa chamado Caminhos do Centro, feito a pé e guiado por especialistas na história e na arquitetura de cada itinerário percorrido, evento que ocorre na manhã do último sábado de cada mês. Sempre quis fazer estes Caminhos pelo Centro Histórico da cidade, mas sábado de manhã sempre foi dia sagrado de dormir até mais tarde; não rolou nem mesmo depois de aposentado.
          Então resolvi, no meu tempo e ritmo, trilhar os “Meus Caminhos do Centro”. Naturalmente que iniciei o percurso depois da minha cesta sagrada após o almoço. Sempre que caminho pela cidade, depois de inativo, vou prestando atenção e usando a câmera do meu celular para registrar as “street-arts” dos grafites nos muros e fachadas, bem como outras artes de rua, como monumentos e recantos do nosso meio ambiente urbano. Já acumulo uma coleção de várias centenas de fotos de ruas com inserções artísticas na nossa cidade, muitas já extintas só existem hoje nas fotografias:  Mas desta vez, por ser uma situação especial, saí da minha morada munido de uma máquina fotográfica. Como já dizia o nosso poeta Quintana: “Há tanta esquina esquisita. Tanta nuança de paredes / Olho o mapa da cidade / Como quem examinasse a anatomia de um corpo... (É nem que fosse meu corpo!)”. Saí decidido a fazer uma caminhada de exercício físico e espiritual, pois conforme fosse andando pra frente por este roteiro, mais e mais pra trás as lembranças provocadas pelos detalhes e histórias das ruas iriam me levando.
          Da Travessa Pesqueiro, onde vivo em Porto Alegre, encravada nos limites dos bairros Menino Deus, Praia de Belas e Cidade Baixa, atravessei a avenida Aureliano de Figueredo Pinto, pra quem não sabe é a continuação da Érico Veríssimo que os antigos ainda chamam de Cascatinha ( aquela que aos domingos é rua de lazer na pista central do corredor dos ônibus, corredor este que serviu de pátio para as minhas crianças andarem de bicicleta, roller e skate), e segui caminhando pela rua João Alfredo, com suas casinhas antigas de porta e janela germinadas transformadas em bares noturnos. Ali me veio a lembrança do tempo em que os desfiles de carnaval da pacata cidade de Porto Alegre eram na rua João Alfredo, para onde as famílias traziam suas cadeiras e sentavam ao longo das calçadas, onde o cordão de isolamento era literalmente apenas por uma corda amarrada nos postes; e lá me vi criança, fascinado pelo espetáculo da vida. Seguindo pela João Alfredo, depois de passar pela Joaquim Nabuco e Lopo Gonçalves, que são interligadas pela histórica e tombada Travessa  dos Venezianos,  cruzei  pelo antigo Solar Lopo Gonçalves, que  hoje é um Museu com sua senzala no porão. Ao lado do museu ainda hoje existe uma casa velha onde permanecia até pouco tempo atrás a placa da Gráfica Sandra, local do meu primeiro emprego como tipógrafo profissional aos 17 anos de idade (recém saído do internato).
. Segui caminhando e dobrei na Rua Luis Afonso, onde na minha infância a minha família morou pela primeira vez num apartamento (depois de viver por décadas em peças alugadas). Entrei na José do Patrocínio, no sentido da República, e sem resistir tive que invadir, para fazer umas selfies no pátio do que antigamente era a casa de cômodos que a minha família morou, em cujos fundos tinha uma enorme campinho de futebol e dezenas de árvores, com muitas goiabeiras...e que hoje é uma sede zonal do Departamento de Esgotos Pluviais. Ali, entre os boyzinhos da zona, no início dos anos 70, éramos conhecidos como os três irmãos: Xirú, Xiruzão e Xiruzinho (eu, um adolescente rebelde às vésperas de botar o pé na estrada de carona, como hippie e artesão). A diversão dos marmanjos, sem internet, era provocar brigas com turmas de outras zonas: contra os playboys da Demétrio Ribeiro ou contra os Barra Pesada da Baroneza do Gravataí (destes sempre apanhávamos feio!) Mas os Xirus eram bons de facão! (menos eu, é claro, que era piá e só ia pela adrenalina de assistir e correr junto depois).
Na Rua da República desci no sentido do antigo Rio Guaíba e atual lago, passei pela escola e Igreja Pão dos Pobres, cujos sinos até hoje fazem parte das minhas manhãs de domingo com sua sonoridade mística. A seguir, peguei a rua Praia de Belas. Em frente ao prédio do DAER, me veio lembranças antigas, dos tempos em que havia um mercado público, tipo uma grande feira livre permanente, no local onde hoje tem o quartel do Corpo de Bombeiros e o grande edifício do IPE. É incrível como me percebo antigo, o rio vinha até as proximidades da Avenida Borges de Medeiros, só quem viu para acreditar. Nadando no rio acompanhei o lento processo de drenagem e aterro de todas esta área que hoje constitui o Parque Marinha do Brasil e o Parque Harmonia, inclusive para as obras de construção do estádio de futebol  Beira Rio do Internacional, que assisti literalmente emergir do fundo das águas, e onde quase morri afogado certa vez. Na margem do Guaíba, tempos depois, minha família foi morar, atrás do edifício do IPE, nas proximidades do desaguadouro do esgoto da Avenida Ipiranga, na Rua Celeste Cobato, que na época era a última rua, quase na beira do rio e onde as dragas vomitavam areia dia e noite...
Como o meu rumo era o centro da cidade, onde tudo começou na minha vida de portoalegrense adotado, segui pela Borges de Medeiros por cima do Viaduto Açorianos. Este é um dos meus locais preferidos da cidade. Por ser uma região extremamente fotogênica, eu nunca me canso de estar sempre percebendo novos ângulos para fotografias que enquadrem a antiga Ponte de Pedra dos Açorianos. Enquadro no foco o gigantesco  monumento em ferro no gramado e o curvilíneo edifício do Centro Administrativo Estadual por trás, de preferência com as maravilhosas matizes coloridas do pôr de sol portoalegrense. Para o outro lado, é possível o enquadramento fotográfico da Ponte dos Açorianos em primeiro plano com as torres da Catedral Metropolitana ao fundo. Outro ângulo interessante, é o de captar a ponte de pedra com a chaminé da Usina do gasômetro ao longe.
O meu convívio com este sítio urbano vem desde muito tempo. Primeiro me lembro do antigo Clube Aimoré que promovia movimentados bailes de gafieira, cuja sede ficava numa rua sem saída do outro lado da ponte dos Açorianos, cujo acesso só se dava através da própria ponte, pois na outra extremidade da rua já era o rio. Depois estudei por sete anos na Escola Técnica Parobé, vendo as águas do Guaíba que batiam em suas oficinas irem de afastando, enquanto eu trilhava, aos trancos, estes caminhos para terminar o ginásio e o segundo grau.
Ao invés de subir a Borges de Medeiros em direção ao centro, entrei à esquerda na Demétrio Ribeiro, e parei diante do Cinema Capitólio, onde eu guri ia aos domingos trocar gibis com a meninada, mesmo quando não tinha dinheiro pra assistir aos filmes do Gordo e o Magro, do Chaplin, e os Hércules e Cowboys da época. Cine Capitólio cujo prédio está sendo ressuscitado, após décadas de períodos de abandono alternados com obras intermináveis de reformas. Depois caminhei várias quadras, passando pela Garagem do Bolinha que até hoje está lá, e parei na esquina com a Gen Auto, rua em que aluguei a minha primeira peça numa casa de cômodos com a minha primeira mulher, onde eu arredava a cama, ouvindo Led Zeppelin e Caetano Veloso, para escapar das goteiras, enquanto estudava o curso técnico de eletrônica em busca de um ofício para melhorar de vida. Antes disto, lá no fundão da Demétrio, no cruzamento com a rua  Cipriano Ferreira, é que encerrei a minha primeira infância, até os dez anos de idade. Quando eu vinha de férias do internato, jogávamos futebol no meio da rua e pelas calçadas; gurizada medonha, fugíamos pra tomar banho no Guaíba, justo no zona mais perigosa, por ser cheia de buracos traiçoeiros. Mas, por incrível que pareça, sobrevivi a todos os riscos, inclusive o de subir e descer correndo dos bondes, e estou aqui para contar estas passagens pela região decadente da Washington Luís e Ponta da Cadeia na década de 1960.

Dali subi a íngreme lomba da Cipriano Ferreira para o Alto da Bronze (em cuja praça, único terreno plano das redondezas, jogávamos bolinhas de gude) e, próximo da Duque de Caxias, me deparei com a mesma velha casinha de porta e janela direto pra calçada, onde minha família pela primeira vez constituiu um lar só seu na capital gaúcha. Antes, morávamos em uma peça de aluguel na rua Duque de Caxias, por onde também passei caminhando na sequência, mas cuja casa cedeu lugar a um edifício, perto da escadaria que desce para a rua Fernando Machado. Nesta altura da Duque de Caxias chega o topo da rua João Manoel, ladeira por onde desci, cruzando a rua Riachuelo em direção ao centro e, antes de chegar na Rua da Praia, sentei para apreciar o lugar onde tudo começou pra nós por aqui. Minha família chegou aqui, vinda de Bagé, no fluxo do êxodo rural dos gaúchos a pé, que vinham tentar a vida na capital. A casa de pensão que foi o nosso paradeiro e ganha pão não existe mais, no lugar foi construído o ginásio de esportes do Colégio Nossa Senhora das Dores. Entretanto, apesar de eu ter apenas cinco ou seis anos de idade na época (às vésperas de ir para o internato), me lembro perfeitamente da casa, da cozinha, dos seus cômodos e da escada que levava aos quartos de hóspedes no andar superior. Lembro do cheiro de mofo do seu porão, e principalmente de brincar de carrinho de lomba na calçada em frente do prédio.
 Desolado, perdido em meus pensamentos, dobrei na Rua da Praia e segui até a morada do poeta Mário Quintana, transformada em Casa de Cultura, onde recitei baixinho o seu famoso verso: Quando eu for, um dia desses / Poeira ou folha levada / No vento da madrugada...Cidade do meu andar...Cidade dos festivais de teatro e de cinema (de inverno e de verão), da Feira do Livro na praça da Alfândega, cidade que forjou a minha cultura de ser e perceber o mundo com o jeito portoalegrense de viver... Cidade do meu andar / (Deste já tão longo andar!) / E talvez do meu repouso... Talvez?  Controvérsias sociológicas à parte, comecei a refletir o que eu gostaria, afinal, que fizessem com as cinzas do meu corpo cremado “quando eu for poeira ou folha levada”.  Eu vi o Quintana morto no seu velório, e  achei que ele estava bem mortinho. Percorri mentalmente as possibilidades de locais para a destinação final dos meus resíduos sólidos, até que o encontrei e passo a torná-lo público com um leve sentimento de superação dos medos e preconceitos irracionais sobre a morte. 
Vai ser ali, junto à Usina do Gasômetro, onde os portoalegrenses costumam se sentar à tomar chimarrão nos finais-de-semana para apreciarem e até aplaudirem o espetáculo do sol poente se perdendo em suas cores derramadas no Rio Guaíba (que para mim será sempre Rio com R maiúsculo!), o local que elegi para ser o cais do meu destino final, cais dos meus restos mortais. Meu cais final será precisamente na margem, perto do “maconhódromo” (onde jovens por gerações consecutivas costumam fumar seus baseados) e no meio dos matacões de pedras que estabelecem uma faixa limítrofe entre a areia com grama e a água, em que as minhas cinzas tanto podem ser levadas para a areia ou engolidas pelas ondas, como também podem ficar sedimentadas neste interregno. Assim, nunca se saberá se uma das minúsculas partículas de poeira daquela região é meramente pó de areia ou cinza de baseado ou, ainda, se é parte do que foi o meu corpo, especialmente quando entrar no olho de alguém e o fizer lacrimar com os olhos tingidos de vermelho pela resplandecente morte do sol de cada dia... Ali estarei eternamente participando das rodas de violões, de chimarrão, de protestos, de comemorações populares e de todas as demais rodas que por lá se formarem... Ancorado no meu cais estarei sempre na roda.


Jogos Infantis: Futebol, Religião, Política e Carnaval

          Anos atrás, antes de eu me aposentar no Dmae, no meio de uma discussão acalorada com um amigo petista que continuava politicamente engajado (que não reconhecia que o “sonho acabou” e que só ficou a remela), eu usei um argumento que achei interessante desenvolvê-lo melhor, por apresentar um bom potencial (pelo menos literário). Dizia eu que a política é um dos entretenimentos sociais, assim como a religião e o futebol. Todos pertencem ao gênero dos gostos humanos e, como se sabe, gostos não se discute! Se diz que gostos não se discute porque não têm racionalidade, não exigem razões para se gostar mais do vermelho do que do azul (apesar de eu achar o vermelho bem mais bonito!). A gente gosta simplesmente por ser mais agradável aos sentidos ou ao entendimento de cada um. Entretanto, por futebol, política e religião as pessoas até se matam umas às outras em defesa de seus gostos.
         Na verdade, os gostos são as coisas que mais gostamos de discutir, são as que geram as discussões mais acaloradas e até explosivas, tanto no futebol quanto na religião e, especialmente, na política. Por mais que se queira ser condescendente, não dá para admitir que existe alguma racionalidade entre o que se diz e o que se faz na ação política, assim como na religião e no futebol. Estas atividades envolvem uma mera questão de fé cega para levar alguém a acreditar e continuar se envolvendo institucionalmente na defesa de seus indicadores de realizações e benefícios na vida das pessoas.
          Na ação política, em particular, todos os governos, sem exceção, sempre têm longas listas de “grandes realizações” sociais, com números e percentuais que comprovam que “nunca neste país se fez tanto”... E o país, coitado, se afunda cada vez mais na primitiva violência urbana da “guerra de todos contra todos”, incrementada pela corrupção e pela crônica falta  de crescimento econômico.
          Mas o enfoque que literariamente me fez reproduzir este tema foi o sintetizado pela metáfora das “brincadeiras infantis” que utilizei na ocasião, para justificar a alienação política. Disse que tanto as discussões de interesses político-partidárias, como as análises dos campeonatos e méritos futebolísticos, bem como as desavenças sobre quais cultos religiosos conduzem mais almas ao paraíso, são filosoficamente como brigas de crianças, em que aos adultos não convém tomar partido.
Para quem se move dentro destas esferas sectárias do entretenimento humano (futebol, religião e política) é difícil perceber que existem outras esferas mais abrangentes, tais como a literatura e a filosofia. Dentro desta metáfora de “jogos infantis”, caberia aos adultos, por serem (em tese) filosoficamente mais esclarecidos, fazer com que as crianças não briguem, lhes explicando que estas disputas acaloradas fazem parte proposital das brincadeiras, para torná-las mais vibrantes e envolventes. Caberia aos adultos orientar as crianças que tudo não passa de puro entretenimento e diversão, recursos que culturalmente utilizamos enquanto esperamos que a consciência humana evolua lentamente, através dos milênios de história da humanidade, até atingir sua absoluta realização cósmica. Caberia exemplificar que há pouco tempo atrás jogávamos gladiadores para os leões na arena, hoje já nos divertimos em apenas vibrar com um belo gol a favor do nosso time, com um emocionante sermão do pastor da nossa seita ou com um discurso inflamante de um político de nossa facção partidária. Como adultos, nos caberia confortá-las, em suas naturais ansiedades infantis, dizendo-lhes que há grandes progressos cênicos, a partir da Revolução Francesa e, agora, com a falta de água em São Paulo, com o “efeito estufa” e o “buraco na camada de ozônio”, há forte tendência no sentido da liberdade da razão, de sua maturidade e predominância nas ações humanas no planeta.
Mas esta metáfora suscitou em mim o problema colocado no filme “A Cidade de Deus”, em que as crianças se organizaram em gangues armadas e cresceram dominando com esta lógica as favelas... daí as cidades, as nações e o mundo. Assim, as gangues que se dedicaram às brincadeiras de poder político (oriunda da antiga brincadeira ingênua de polícia e ladrão), estão por aí, desde a Casa Branca até o Palácio da Alvorada e o Piratini, brincando de convencer todo mundo, pela retórica de distintas dialéticas, que se trata de uma realidade séria e única, que a coisa é pra valer. Seguem viajando na maionese virtual e convictos de suas razões irracionais, seja de Esquerda, de Centro ou de Direita.
De minha parte, atualmente prefiro brincar com as gangues das Escolas Carnavalescas, que têm mais consciência que atuam no mundo dos espetáculos. Apesar de também haver fanatismos entre as diferentes comunidades, em geral as gangues carnavalescas ainda costumam reconhecer a importância dos adversários, sem os quais não haveria o lúdico das brincadeiras e das suas manifestações artísticas. Digo “ainda” em função da polêmica criada pela Escola de Samba Beija Flor do Rio que este ano aceitou promover a divulgação de uma ditadura cruel da África em troca de um patrocínio milionário. Já vão longe os tempos em que a contravenção do Jogo do Bixo é que bancava os desfiles cariocas que se tornaram o maior espetáculo cênico do mundo. Mas, convenhamos, a vida seria muito entediante sem as acaloradas discussões sobre futebol, religião, política e carnaval. Discussões que, sabidamente, não levam a nada, mas que tanto nos divertem nos nossos jogos infantis: Sou vermelho e branco, sou Imperadores do Samba, sou bicampeão do carnaval!