A ESTÉTICA DO FRIO: MAIS DE 30 ANOS DE MÚSICA NA REITORIA

          O Projeto Unimúsica  da UFRGS está comemorando 30 anos; foi criado em 1981 com a proposta de abrir um espaço de amostragem para a produção musical. A ideia cresceu rapidamente e possibilitou o surgimento, na década de 80, da chamada Geração Unimúsica, da qual fizeram parte artistas como Nelson Coelho de Castro, Vitor Ramil, Totonho Villeroy, Nei Lisboa, entre outros.
       A programação  comemorativa dos 30 anos do projeto se estendeu desde julho e vai até dezembro, com a participação de Zélia Duncan, Vitor Ramil, Egberto Gismonti, Ná Ozzetti e Renato Borghetti, entre outros.
          
Unimúsica é como uma rede que abriga e embala um grande número de pessoas ligadas entre si por uma experiência comum. Tanto é assim que me encontrei, no show do Egberto Gismonti, com o amigo dmaeano Júlio Brum, e ficamos lembrando de memoriáveis shows que cada um de nós tinha experienciado naquele mesmo palco da Reitoria, no antigo Projeto Seis e Meia ou no Projeto Pixinguinha.
O Egberto Gismonti acompanhado da Orquestra de Câmara do Teatro São Pedro foi um espetáculo pra lavar a alma de música brasileira, com a sua genialidade de virtuoso no piano. Houve um tempo, até o final do século passado (cruzes, como estou velho!), em que havia espaço para a música instrumental no cenário da música brasileira, e o próprio Egberto Gismonti era  um ídolo popular, produzindo discos de sucesso junto à juventude.
É sensacional ouvirmos música de orquestra e sentirmos a sua brasilidade contemporânea, sem perder o sotaque do legado clássico e folclórico de Vila Lobos, contendo a  negritude dos chorinhos do Pixinguinha e ainda agregando as contribuições dissonantes de Hermeto Pascoal e Sivuca, mesclado com o jazz harmonioso do Tom Jobim.

              Egberto Gismonti é tudo de bom junto, incluído e  misturado com muita criatividade. Foi um privilégio desfrutar de sua presença luminosamente musical!
           Encucado, depois do show, fui pesquisar informações para clarear a memória sobre os três diferentes projetos musicais que vivenciamos na Reitoria, não só o Júlio, a Amagdha e eu, mas grande parte da população portoalegrense, ao longo de mais de 30  anos. A internet é uma maravilha para organizarmos mentalmente o passado da vida da gente, pois tem a história ao alcance da mão:
          Projeto Pixinginha & Projeto Seis e Meia - o Projeto Pixinguinha tinha como inspiração o Projeto Seis e Meia, que desde 1976 lotava o Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, com espetáculos acessíveis e um horário que coincidia com o fim do expediente da população que circulava pelo Centro da cidade. O Projeto Pixinguinha foi criado em 1977 pela Funarte em parceira com as Secretarias de Cultura Municipais e Estaduais, e foi interrompido 20 anos depois por falta de verba.

Através do Projeto Pixinguinha (às seis e meia), diversas cidades brasileiras puderam assistir a espetáculos de grandes artistas da música popular, como os veteranos Cartola, Jackson do Pandeiro e Marlene, os iniciantes Marina Lima, Djavan e Zizi Possi e ainda Edu Lobo, João Bosco, Nara Leão, Paulinho da Viola, Alceu Valença, Vinícius com Toquinho e Maria Medalha, e muitos outros. A iniciativa foi um grande sucesso, com teatros repletos pelo país e desdobramentos como discos e programas de TV e rádio.
No primeiro ano do Projeto Pixinguinha, nenhum espetáculo teve tanto público quanto o de Marlene e Gonzaguinha. Do Rio de Janeiro a Belo Horizonte, passando por São Paulo, Curitiba e Porto Alegre, foram 24.372 espectadores aplaudindo o show que, montado originalmente para o projeto Seis e Meia (como todos os outros do ano de estreia do Pixinguinha), inflamou plateias lotadas nos teatros em que se apresentou naquela temporada de 1977. Eu vi: Valeu Gonzaguinha!
O outro show que fui assistir da programação dos 30 anos do Unimúsica, todos gratuitos mediante a doação de 1 quilo de alimento não perecível, foi o do Vitor Ramil - “Délibab (Ilusão do Sul) ” que é um disco de milongas inspirado nos poemas do argentino Jorge Luis Borges e do poeta pampeano alegretense João da Cunha Vargas. Ramil vai mais longe: “O álbum marca também a posição da milonga como música popular brasileira”.
O Ramil fez um brilhante texto filosófico curtinho (coisa que eu nunca consegui produzir nos meus anos do curso de filosofia na UFRGS), contido num livreto que eu comprei na entrada no Salão de Atos da UFRGS, com o pomposo título: A Estética do Frio – Conferência de Genebra. Resumindo a conferência, que o cara apresentou em 2003 na Suíça (sei lá porque lá!), o Ramil conta que estava em Copacabana suando e tomando chimarrão, quando viu no TV o carnaval fora de época do nordeste, com as pessoas derretendo. Depois passou na TV o frio e os campos com geada no RS. Ele pensou: nada a ver o carnaval, tudo a ver o frio!
Entretanto os nordestinos estão sempre inovando com suas músicas, enquanto a nossa está encarcerada pela doutrina do gauchismo e encarangada pelo frio. Pensou com seus botões: Como seria a expressão livre da estética que nos une no sul e nos diferencia do resto do país? Ora, concluiu o pensador de Pelotas, a milonga!  A milonga já era algo que ele curtia inconscientemente antes, aí se jogou neste filão de cantar a milonga como essência da estética triste do frio da terra dos pampas, los gauchos riograndenses, uruguaios e argentinos. Em contraposição às músicas alegres do Brasil tropical que promovem a festa, a estética do frio provoca a introspecção.
Pra mim, que sou de São Diogo (ou San Diego), terra da campanha fronteiriça com o Uruguai, no fim do mundo entre Herval, Pedras Altas, Jaguarão e Bagé, que com orgulho até hoje não existem nos mapas as veredas que conduzem até lá, a milonga faz brotar recuerdos das raízes e ancenstrais...
            É isso, foi um baita show da estética do frio numa noite fria de agosto na Reitoria da UFRGS!
         Como uma coisa puxa a outra na memória da vida da gente, é bom resgatar que este trabalho com a poesia e música do regionalismo riograndense, feito com abordagem pop e contemporânea da Estética do Frio é, na verdade, um legado da família  do Vitor Ramil, iniciado muito tempo atrás pelos seus irmãos Kleiton e Kledir. Pelos acasos da vida, no início dos anos 70, fui assistir a um Amostra de música no Teatro São Pedro dos alunos do Cursinho Pré-Vestibular IPV do Professor Fogaça, onde presenciei o lançamento de várias músicas dos garotos que formariam os Almôndegas e do próprio Vento Negro, que seria um grande sucesso do grupo.
Aliás, a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, através da Coordenação de Música da Secretaria Municipal da Cultura, homenageou a dupla Ramil com a menção especial do Prêmio Açorianos de Música 2010. O prêmio está em sua vigésima edição e é o mais importante da categoria no Rio Grande Sul. Os Homenageados do Ano, pelo conjunto da obra, foram Kleiton & Kledir, que apresentaram definitivamente para todo Brasil a nova música produzida pelos gaúchos. Eternizaram nosso sotaque diferente, nossa maneira própria de falar e cantar, com termos até então desconhecidos fora daqui, como “deu pra ti” e “tri legal”. Acabaram se transformando em símbolos do gaúcho contemporâneo, do homem moderno do sul do país, o que fez com que recebessem o título de “Embaixadores Culturais do RS”.
Woodstock...
De fato a música foi como uma rede que abrigou e embalou um grande número de pessoas ligadas entre si por uma experiência comum...enquanto os últimos 40 anos escoaram por entre os dias que contam a vida da gente.
-Fiquem ligados que ainda restam alguns ingressos do POA EM CENA, corram!

O LEGAL DA LEGALIDADE

       Foi preciso esperar que morressem Jango (+1976) e Brizola (+2004), para que pudéssemos começar a tratar dos acontecimentos históricos da Campanha da Legalidade, sem a viseira estreita das facciosas propagandas partidárias. Pense bem, como é que os figurões dos outros partidos políticos iriam reconhecer as façanhas do fundador de um partido concorrente? Reconhecer que o Brizola deve ocupar um lugar destacado na galeria dos heróis gaúchos, quiçá nacional, seria como “se entregá pros home de mão beijada”, pensam os caciques partidários.
       Agora, tanto faz, pois Brizola não deixou sucessores políticos de vulto para usufruírem de suas glórias de tardias condecorações. O importante é que estamos resgatando esta figura lendária, cujo espírito gaudério, mesmo ameaçado pelo cerco do exército, não se deixou silenciar. Pelo contrário, botou a boca no microfone da Rádio Guaíba que foi instalada nos porões do palácio: "Ninguém dará o golpe por telefone. O Rio Grande não aceita o golpe e a ele não se submeterá".

             Brizola, por sua atuação na Campanha da Legalidade se consagrou como um grande líder gaúcho de massas, ao conseguir mobilizar o seu povo para uma luta que parecia quase suicida, fazendo com que a população se dispusesse voluntariamente a lutar e morrer pela Legalidade Constitucional, ou seja, para que assumisse a presidência do país o Vice-presidente Jango, após a renúncia já com intenções golpistas do maluco Jânio Quadros.
         O legal da Legalidade são as emoções próprias da metade do século passado, no auge da guerra-fria, quando as pessoas ainda eram capazes de matar e morrer por ideias e ideologias. Eram tempos conturbados aqueles. Getúlio Vargas teria se suicidado em 1954 para impedir o golpe das forças reacionárias da UDN (União Democrática Nacional), que foi um partido político brasileiro liderado pelo Carlos Lacerda – O Corvo. Está tudo na Wikipédia: A UDN tentou impugnar o resultado da eleição de Juscelino Kubstchek, sob a alegação de que Juscelino não obteve vitória por maioria absoluta dos votos (obteve 36% em turno único entre vários candidatos). A posse de Juscelino e do vice-presidente eleito João Goulart só foi garantida com um levante militar, em 1955, que depôs o então presidente interino da República Carlos Luz da UDN (Café Filho, que havia assumido a presidência após o suicídio de Vargas tinha sofrido enfarte e estava afastado da presidência). Assumiu a presidência o presidente do Senado Federal, Nereu Ramos, do partido de JK. O Brasil permaneceu em estado de sítio até a posse de JK em 31 de janeiro de 1956. É, caros leitores, as transições de governo eram traumáticas naqueles tempos!
          O legal da Legalidade, que agora foi instituída como uma data oficial no calendário das comemorações cívicas e escolares de eventos do governo estadual gaúcho, é que o episódio nos reporta ao estudo e discussão do engendramento histórico da ditadura militar e de suas nefastas conseqüências posteriores na vida do povo brasileiro. Foram duas décadas (1964-1985) feitas de anos de chumbo, páginas que não podem ser esquecidas pelas novas gerações.
          Por exemplo, podemos pesquisar sobre a trajetória pessoal do João Belchior Goulart, que não é o cantor Belchior, mas o político mais conhecido como Jango, que foi ministro do trabalho de Getúlio Vargas. Jango, depois de ter sido vice do Juscelino (na ocasião obteve mais votos que o presidente eleito, pois as votações para presidente e vice eram separadas – que loucura!), foi reeleito como vice, desta vez do doido Jânio “da vassoura” para varrer os corruptos, uma espécie de Collor da época caçando marajás. Como vemos, o Jango era bom de voto, tinha cacife para ser o próximo presidente nas urnas.
        Mas não foi necessário. Jânio Quadros, numa manobra política esquizofrênica, surpreende a nação pedindo demissão do cargo, justo quando havia enviado seu vice Jango para visitar a China, lá no outro lado do mundo. Foi a deixa para as forças reacionárias golpistas saltarem que nem abutres na carniça da cadeira vaga do presidente, articulados mais uma vez pelo corvo Carlos Lacerda (que queria ser presidente a qualquer custo, mas também acabou cassado pela ditadura: bem feito!).
         Também é legal na Legalidade o clima de tensão e suspense em que se sucedem os acontecimentos. O governo golpista dos militares chegou a programar um ataque com aviões ao Palácio Piratini. A ordem era para matar o Brizola e todos os que estivessem com ele. No entanto, o ataque foi cinematograficamente sabotado pelo próprio pessoal de controle das forças armadas, com o III° Exército aderindo à Legalidade. Ainda não foi desta vez, pois o golpe militar articulado não contava com a resistência astuta levantada nas barricadas gaúchas pelo então governador Leonel de Moura Brizola. O avanço das baionetas do autoritarismo da ditadura militar foram adiadas por mais três anos, pois os milicos tiveram que engolir e bater continência para a Campanha da Legalidade que empossou na marra, pela força do direito, o “esquerdista” João Goulart do PTB como presidente do Brasil.
          Outro momento legal da legalidade é quando, finalmente em solo gaúcho, conduzido pela mão do Brizola para obter sua louvação, o Jango vai até a sacada do Palácio Piratini, onde o povo fazia vigília noite e dia, e não faz nenhum pronunciamento, apenas abana para a multidão em delírio. Os arranjos de cúpula para admitirem a sua posse e abortarem o golpe já tinham enviado na véspera o Tancredo Neves ao Uruguai, para selar o acordo de uma saída honrosa sem derramamento de sangue: Jango assumiria de boca calada e sob o regime parlamentarista! Jango havia prometido que não ia colocar mais lenha no fogo revolucionário do Brizola, que exigia o cumprimento da Legalidade sem negociações.
         Uma coisa legal da Legalidade é que, apesar do Jango ter tomado posse amordaçado pela emenda parlamentarista, ele conseguiu soltar esta mordaça revogando o parlamentarismo através de um plebiscito em 1963, que restituiu o presidencialismo no país. Empolgado, em março de 1964, data da realização de comício em frente à Estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, perante trezentas mil pessoas, Jango decreta a nacionalização das refinarias privadas de petróleo e a desapropriação de terras para a reforma agrária. Os conservadores fizeram parecer que ele era o bicho-papão comunista mostrando em suas garras a foice e o martelo. A oposição militar veio à tona para impedir que tais reformas se consolidassem, impondo finalmente o golpe militar, desta vez bem articulados com os políticos reacionários (Lacerda, Sarney, etc.) e sem possibilidade de mobilização das camadas populares da sociedade para uma reação nos moldes da Campanha da Legalidade em âmbito nacional.
         O mais legal da Legalidade é a figura jovem do governador Brizola com uma metralhadora dependurada no ombro e comandando as massas com sua voz sentida, saída do fundo dos porões e transmitida pela rede social das ondas de rádio, direto para os corações e mentes dos seus compatriotas. Belos tempos idealistas aqueles!
- Valeu Velho Briza!



COTIDIANO DE UM APOSENTANDO

            É muito difícil que exista outro aposentado que frequente tanto o seu antigo local de trabalho quanto eu. Faço isso não “porque não tenha mais nada o que fazer” ( tenho uma Lista das 100 Coisas para fazer na aposentadoria!)  ou por ter saudade depressiva dos colegas; nem por sentir falta do cafezinho compartilhado com bolachinhas ou da roda de chimarrão; pois nem deu tempo ainda pra tanta carência. Tampouco vou lá só para torturar os cativos do cartão-ponto com a minha exuberante liberdade! O motivo da minha assídua presença, que acontece pelo menos duas vezes por dia  (que só falta eu bater ponto no quarteirão) é a minha mulher. Ela é a culpada por eu ter que manter parcialmente a mesma rotina das últimas duas décadas, mesmo depois de estar aposentado:
“Todo dia ela faz tudo sempre igual”, como dizia a música Cotidiano do Chico Buarque, só que sou eu próprio que “me sacudo às seis horas da manhã”, posto que moramos em casas separadas. Vivemos uma nova modalidade de relação conjugal em que “o sorriso pontual e o beijo com a boca de hortelã” se dá no carro, quando eu passo na casa dela para levá-la para o trabalho.
Estou no meu terceiro casamento, sou quase especialista no assunto. No ímpeto da paixão de querer ficar junto o tempo todo, a tendência dos casais é que um se mude de mala e cuia para dentro da casa do outro. Então, num novo casamento convencional, “toda noite ela diz pra’eu não me afastar”, até o cara se sentir asfixiado e, numa reação de legítima defesa, saltar fora novamente.
          Já faz dezoito anos que vivemos harmoniosamente, com  cada um vivendo na sua casa, com espaço físico e tempo para nos dedicarmos às nossas individualidades  e peculiaridades. Eu com esta minha compulsão por escrever, e ela com o seu estudo de piano; de modo que valorizamos qualitativamente nossos momentos de convivência familiar. É verdade que o universo  conspirou   a favor desse encontro de propósitos, pois tanto ela como eu tínhamos filhos pequenos quando iniciamos o nosso relacionamento, ela com um garoto e eu com duas meninas, de forma que convinha que a reunião desta nova “grande família” barulhenta ficasse restrita a momentos lúdicos. Cada um podia, assim, cuidar de seus rebentos ao seu modo e sem tensionar demais o período de namoro e de ajustes do novo casal que se formava. 
Assim, aproveitamos os momentos em que estamos juntos, que não são poucos, procurando viver prazerosamente e com alegria, pois é um estar junto sem o estigma da rotina geralmente estabelecida nos casamentos convencionais de que trata a canção do Chico,  na qual o cara “todo dia pensa em poder parar, pensa em dizer não, depois pensa na vida pra levar e se cala com boca de feijão...”
No nosso cotidiano se pode parar, pensar e diariamente dizer “não”. É claro que surgem ruídos na comunicação, como em todos os casais, mas aí cada um tem o escurinho do seu quarto e o silêncio do seu travesseiro para refletir e desarmar o espírito para na manhã seguinte, ou quem sabe em dois ou três dias depois, poder voltar a investir na relação. Evita-se, com isso, os desgastes mais graves que uma convivência obrigatória num momento de atrito conjugal pode causar: “me aperta pr'eu quase sufocar, e me morde com a boca de pavor.”
A cultura popular é sábia ao dizer que a vida dos amantes clandestinos é mais excitante, nem tanto por ser às escondidas e mais por eles se encontrarem apenas nos momentos de prazer. Analogamente, a modalidade de casal que vive em casas separadas, são como amantes monogâmicos publicamente declarados ou como namorados permanentes: “Meia-noite ela jura eterno amor.”

Por isso o nosso cotidiano conjugal é bastante peculiar, até pelo fato de que moramos propositadamente apenas uma quadra de distância um do outro e trabalhávamos na mesma empresa, ainda que não no mesmo prédio, mas no mesmo quarteirão. Portanto, além de almoçarmos juntos todos os dias em restaurantes buffets, “às seis da tarde  como era de se esperar, ela pega e me espera no portão” da empresa e  geralmente também jantamos na companhia um do outro.
Mesmo sem nunca termos pensado em “juntarmos os trapos” para morarmos juntos, por “essas coisas que diz toda a mulher” sobre o glamour do casamento enquanto declaração de amor, nos casamos legalmente há três anos atrás (através da Declaração de União Estável), e seguimos “com boca de paixão” a vivência do nosso cotidiano de um casal que vive em casas separadas.
Mas garanto que é por pouco tempo que vou manter esta rotina de aposentaNdo freqüentador assíduo do seu ex-local de trabalho, sabem porquê?...
Por que daqui há dois anos ela também vai se aposentar e ambos estaremos livres para voarmos juntos por outras rotinas e horários, numa aposentadoria familiar integral!

POESIA: QUEM NÃO PRECISA?

Quando é muito
Do mesmo de sempre
É hora de um pouco
Do novo de nunca.

         Saibam que nem só de prosa é feita a vida de um aposentado. Saibam também que sempre é hora de se libertar da camisa de força prosaica de querer ter tudo bem explicadinho e soltar a franga poética de poder ficar apenas nas sintéticas sugestões sutis:


A GENTE SOMOS UNS CORRUPTOS

           Todo mundo sabe exatamente
           O que é que tem que ser feito
          Mas ninguém exatamente faz
          Não faltam leis nem mandamentos
          Sobram filosofias e religiões
          Abundam partidos e associações
          E ONGs, e tribos organizadas
         Não falta boa intenção nem ação
         Sobram voluntários de mãos dadas
         Abundam planos de ações aceleradas
         E obras, desperdícios e corrupção!

                 Então, desde já acesse ao meu blog de poemas ELOS e exercite o seu jogo de cintura poético:


E volte  sempre!

Manifestações de protestos na Europa: por quê?

Em 2010 houve manifestações de rua em  Paris contra a reforma de previdência que aumentava de 60 para 62 anos  a  idade de aposentadoria naquele país. Agora em 2011, também em reação aos pacotes econômicos governamentais, as manifestações de rua de jovens e estudantes se espalharam com força pela Grécia e pela Espanha, também repercutindo na Itália, Irlanda, Portugal e agora até em Londres. Ou seja, a Europa do Euro está tremendo nas bases!
O que está acontecendo com o Velho Mundo que apostou todas as suas fichas na união monetária do mercado comum europeu em 1999, e agora assiste a deflagração de crises graves em vários países do bloco, com a opinião pública se voltando contra o euro?...É como em maio de 1968, em que movimentos espontâneos, não partidários, eclodiram contra tudo e contra todos, pipocando em vários países, e que ninguém entendeu muito bem até hoje?...
As notícias dos jornais e televisões, como sempre, não são esclarecedoras nem formadoras de opinião, são meramente alarmistas e sensacionalistas. Enquanto os “indignados” espanhóis reuniam nas praças de Madri e Barcelona dezenas de milhares de manifestantes marchando contra o “pacto europeu”, desde maio até junho, eu lia e ouvia atentamente tudo o que diziam, mas os veículos de comunicação não dizem nada, nada, nada não! (parafraseando a letra de uma música dos Engenheiros do Hawaí)...
Foi enquanto o pau comia em praça pública no mês de julho na Grécia, que estava ameaçada de decretar calote na dívida externa, que de tanto catar informações  aqui e ciscar interpretações ali, consegui articular uma compreensão mínima de que bicho está pegando por lá. Trata-se do estouro da mais uma bolha do mercado financeiro, desta vez é a grande bolha do euro. Li na Zero e no Correio que a nova moeda trouxe a ilusão de riqueza: o juro baixou e, com crédito fácil e barato, as famílias compraram casas, carros e férias fantásticas. Países como Portugal. Irlanda e Grécia passaram a consumir como os alemães sem produzirem riquezas suficientes. Tanto foi que as famílias não puderam mais pagar os financiamentos e a bolha explodiu, provocando recessão e desemprego nesses países.  Uma vez resgatados emergencialmente como enfermos pelo FMI, em troca estes países se comprometeram com planos de austeridade ditados pela União Européia (UE). Assim, os países deixam de ser independentes, pois é a UE que vai determinar as reduções de salários, cortar os apoios sociais e aumentar os impostos. É mole?...
Claro que os jovens vêem um futuro sombrio pela frente. São pessimistas e acreditam que os políticos destruíram o futuro deles. O euro trouxe falta de soberania, a pobreza aumentou e a corrupção permeia a burocracia partidária no sistema de eleição por listas, onde os políticos tem mais lealdade ao partido do que ao eleitor.
O profeta da ruína do euro, o economista Edward Hugh, defende que os países devem abandonar a moeda européia unificada para recuperarem competitividade, uma vez que todos estão impossibilitados de operar uma política monetária própria. A Europa, depois de muitas décadas de taxas de fertilidade abaixo das de reposição, só tem pela frente o baixo crescimento demográfico, com aposentadorias em alta e com crescentes compromissos de atendimento à saúde. O enigma é como tornar sustentável uma previdência  para uma população de idosos sem taxar cada vez mais os jovens. A influência e o poder da Europa estão em declínio, inclusive sobre o FMI.
A Ásia e a América Latina são forças que crescem em escala global. Países como a China e o Brasil têm pela frente um futuro bem mais brilhante.
Hum...agora entendi. Mas, cá entre nós, ainda bem que o MERCOSUL abichou, não vingou, ficou cada um puxando pro seu assado e disputando beleza até que deu merda! Tem males que vem pra bem, a gente ainda é feliz e nem sabe. Somos a última geração de funcionários públicos com aposentadoria integral, talvez os últimos no planeta globalizado todo! A Dilma que não me ouça...

AGENDA DE JULHO DE UM APOSENTADO

     A  cena cultural portoalegrense no mês de julho é uma loucura, pra quem não está acostumado não é fácil acompanhar tantas opções. Dentro do espírito de dar uma idéia do que pode fazer um aposentado com o seu tempo, relato o pouco que eu consegui fazer, por falta de tempo (acreditem!), na minha agenda de julho:
         Início de julho é final de semestre letivo na UFRGS. Terminei de ler dois livros em español do García Márquez: a Crónica de Una Muerte Anunciada, para apresentar um resumo escrito; e o Relato de Un Náufrago, para relatar em aula como prova oral da disciplina de Español I, na qual obtive aprovación con B!
Truffaut
Ciclo de Cinema: Em pleno horário de expediente, na Sala Redenção da UFRGS - Ciclo Infância no Cinema (de 1º à 29/julho): assisti grátis ao filme Os Meninos da Rua Paulo do diretor Zoltan Fabri, em que se dá a disputa de um terreno baldio por dois grupos de meninos que entram em guerra; e também grátis assisti ao filme O Garoto Selvagem do diretor Truffaut, que narra a trajetória sociológica de um menino que, abandonado na selva, se criou sem contato com ninguém até ser apreendido como objeto de estudo.
 
Engavetar o meu pedido de aposentadoria?
         A minha Antecipação Natalina (conhecida popularmente como pagamento antecipado da metade do 13º Salário em julho) esteve ameaçada, isso caso o PREVIMPA emitisse a portaria da minha aposentadoria antes do preparo desta folha de pagamento. Por este motivo, e também pela expectativa de poder receber a gratificação de R$ 500,00 que o prefeito prometeu pagar aos engenheiros, a título de VRT (Valorização de Responsabilidade Técnica) em decorrência do Movimento dos Capacetes Brancos, fiquei torcendo e pedindo para que o PREVIMPA seja o mais demorado possível no despacho do meu processo. Agora que já recebi o Abono Natalino, relaxei. Total, fazendo bem as contas, tirando o imposto de renda destes R$ 500,00 prometidos, sobra menos do que estou perdendo por estar pagando integralmente a previdência ao invés de pagar apenas sobre a parcela que exceder o teto de isenção. Então, relativamente a esta pretendida gratificação de VRT, resta saber se ela será extensiva também aos aposentados que tem direito a paridade com o pessoal da ativa, por isso sim, tô na luta!...

Debaixo do cobertor + edredom:
        Eta mês de julho frio e chuvoso este! Sabe aquelas manhãs frias e escuras que a gente não quer sair da cama por nada desse mundo?...Sabe a aquelas tardes chuvosas que a gente sempre fica imaginando como seria maravilhoso ficar sesteando até às duas ou três horas?... Pois isso tudo eu estou realizando e afirmo que este outro mundo (longe do local de trabalho) é maravilhosamente possível: basta se aposentar!
No gargarejo do Arnaldo Antunes:
        Baita show o "Arnaldo Antunes ao vivo lá em casa" de um artista performático no palco do Teatro Bourbon completamente lotado de um público encantado com a sua poética musical. Teve destacada contribuição para a criação do clima mágico do espetáculo os solos do Scandurra, que era o guitarrista do Ira!. O 6º Festival de Inverno também promoveu uma palestra do Arnaldo Antunes no Teatro de Câmara, onde o cara se mostrou um papo-cabeça articulado e consciente da arte que faz. Na minha opinião, Arnaldo e Zeca Baleiro são os melhores compositores da MPB atualmente (pena é aquela voz encatarrada do Antunes, mas ao vivo funciona tri-bem!).

       Participei da Oficina de Crônicas, do 6º Festival de Inverno, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura, ministrada em cinco manhãs pelo lendário jornalista dos tempos áureos da saudosa Caldas Junior não igrejeira, o Walter Galvani. Pra se ter uma idéia da trajetória do oficinista, o homem já era jornalista quando o Getúlio Vargas morreu e quando eu nasci, em 1954. Foi patrono da Feira do Livro portoalegrense e tem vários livros publicados. Suas explanações são permeadas de causos e passagens de sua longa vivência com a escrita e com as personalidades que fizeram história e povoam nosso imaginário cultural portoalegrês.
      Criatividade não se ensina, mas é identificando as dificuldades inerentes do processo criativo e da aceitabilidade do texto em termos de oportunidade, relevância e mérito literário na forma do autor colocar a sua opinião, que vai se aperfeiçoando a técnica de se deixar expressar o talento de cada um.
        Escrever é julgar e se expor, ensina Walter Galvani. Crônica é o relato de uma visão peculiar de algo de forma a torná-lo de alguma maneira interessante para o leitor. Fazer crônicas é provocar estranheza com o trivial e simplificar o complexo, fazendo conexões das coisas e acontecimentos do mundo com os aspectos cotidianos da vida e vice-versa.
         Durante a oficina de Crônicas tivemos a oportunidade de escrever duas crônicas como exercícios de se fazer o “vôo da gaivota” para capturar o assunto, bem como para desenvolver o texto dentro de limites que exigem a sua depuração (máximo de 2.400 toques contando os espaços em branco). Reunidos numa turma que continha os mais variados profissionais (jornalistas, professores, empresários, aspirantes a escritor, doutorando em letras, advogados, e até um juiz e eu como ex- engenheiro), da oficina ficou o valioso saldo que é o fato do ministrante se propor a fazer acompanhamento posterior, disponibilizando o seu email para contatos. Ter-se disponível um mestre como orientador nos meandros da redação, não tem preço!
        Valeu Mestre Walter Galvani, a primeira oficina a gente nunca esquece.