A PRIMEIRA DÉCADA DA MINHA APOSENTADORIA

 


Estou comemorando dez anos

Da maior conquista da minha vida

Uma aposentadoria com salário integral

Por uma regra que no Brasil não é mais o normal

E a liberdade de andar sem mais correrias

Contra o relógio ponto pelas ruas da cidade

E poder reduzir o ritmo afinal, pela idade

Pra caminhar observando o sol

Nos jardins dos edifícios nos arredores

E os detalhes coloridos de suas flores

Como que pintadas ou bordadas

Por inspirações superiores

E se encantar com as cores que voam livres

Nas asas das borboletas inquietas

Sob o olhar sentinela dos gatos

Nos solários dos peitoris das janelas

Indiferentes aos cães nas calçadas

Que puxam seus donos pelas coleiras

Para fazer xixi no tronco dos ipês coloridos

Ou cocô no canteiro de um florido jacarandá

Estou comemorando uma década

De uma aposentadoria muito bem usufruída

Sem tédio ou ansiedade, com as horas bem distribuídas

Com tempo suficiente para se deter

Para ver o sol poente colorir o céu

E tingir de dourado ou rubro o rio Guaíba

Como que pintados por pincéis de artistas

Misturando Frida Kahlo com Van Gogh

E também admirar o céu noturno

Que as fases da lua do seu jeito clareiam

Com as respectivas estrelas que a rodeiam

Nas diferentes estações anuais

Estou comemorando os primeiros dez anos

De uma liberdade que me custou

Quarenta longos anos de cativeiro

Por uma aposentadoria libertária

Modéstia à parte merecida

E que tem correspondido às minhas expectativas

Pois tenho, finalmente, realizado

Aquilo que sempre sonhei e busquei

Não só para escrever poemas e crônicas

Coisas que faço desde a adolescência

Mas principalmente para compartilhar na internet

Em tempo real, tudo o eu que criar de novo

E também o que está engavetado a vida toda

Em papéis amarelados pelo tempo e roídos pelas traças.

Nesta comemoração faço um brinde especial

Ao engenheiro servidor público que fui fazendo carreira

Que por sua consciência social da função teve persistência

Até se aposentar neste período de perdas dos direitos da previdência

E saúdo o meu Lado B libertado com voz ativa

Que com audácia assumiu as rédeas da minha vida

Publicando vídeos feito um influenciador youtuber

Com as criações literárias do meu vício de escrever

Bem como fez a edição do meu livro Memórias

Com as crônicas do meu blog Diário de Um Aposentando

E realizou a gravação de três CDs de músicas

Com músicos e arranjos profissionais nas canções

De antigas e novas composições de minha autoria.

Estou comemorando o período de 2011 à 2021

Que se encerrará com dois novos livros meus:

Pandemia de Versos e Diário de Uma Pandemia 

Avaliando que na próxima década preciso focar mais

Em desengavetar de vez meus escritos encalhados

Que ainda são muitos projetos inacabados

Preciso fazer isso como quem esvazia as gavetas

Se preparando para a definitiva viagem

Para a qual não se leva bagagem

Pois não sei quantas décadas mais terei

E antes de dar por cumprida a minha missão aqui

Preciso viver cada década como se fosse a última

Para que, de mãos abanando pra quem fica

Na hora certa eu possa partir sem lástimas

Por ter, enfim,  deixado até a minha derradeira dica.

                                                                 09/10/2021

                                                                 Celso Lima

Veja o Vídeo declamado no youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=ZINaY31aEEc&ab_channel=CelsolYoutuberCelsoAfonsoLima

 

2001: A Odisseia da Previdência dos Municipários

 

Que longa fase de sofrimentos está passando a categoria dos municipários de Porto Alegre. Primeiro, logo após a posse do prefeito Marchezan em 2017, ao invés do negociar o reajuste dos funcionários, decidiu reduzir os salários em 3%, através de um projeto  de aumento da contribuição previdenciária de 11% para 14%, sem apresentar nenhum cálculo atuarial que justificasse um aumento de contribuição desnecessário, conforme o próprio Previmpa afirmou. 

Depois veio o Segundo Projeto de Maldades do prefeito Marchezan, que foi o projeto de Reforma do Estatuto dos Servidores Municipais, que foi aprovado com folga em março/2019. O crime do mandante prefeito foi cometido pelos vereadores com requintes de traição, extinguindo direitos estatutários dos servidores municipais. Extinguiram a progressividade percentual dos regimes de trabalho, definindo que as gratificações por regime especial de trabalho não poderão ser majoradas por quaisquer acréscimos decorrentes de tempo de serviço; alteraram os avanços de 5% a cada três anos para 3% a cada cinco anos por tempo de serviço; extinguiram o adicional de 15% e 25% por tempo de serviço e alteraram as Funções Gratificadas (FGs) que só serão incorporadas com 10 anos de exercício após o funcionário completar todos os requisitos de aposentadoria voluntária. Além disso, o projeto previu que os reajustes incidirão sobre o valor do salário básico, e não mais sobre os adicionais, o que achatou ainda mais os vencimentos dos municipários porto-alegrenses.  

De lá pra cá, desde 2016  os municipários não receberam mais nenhum reajuste salarial, nem a reposição da inflação desses seis anos, acumulando uma corrosão salarial de 24% de perdas no seu poder aquisitivo.

Surfando na onda ascendente da extrema-direita, o recém eleito prefeito Sebastião Melo aproveitou o Terceiro Projeto de Maldades do seu antecessor Marchezan, o Projeto de Reforma Previdenciária, para o qual ele não havia conseguido aprovação da bancada de vereadores da legislatura anterior. Possuindo uma maior base de apoio parlamentar, o atual prefeito conseguiu aprovar a tal Reforma da Previdência  em junho/2021, atropelando com mais um pacote de maldades a sofrida classe dos servidores municipais da capital.

Conforme Nota de Repúdio da ASTEC, contrária à Cartilha que o governo distribuiu para enganar os servidores, este projeto de reforma aumenta o tempo de serviço, aumenta a contribuição dos atuais servidores e reduz os proventos de aposentadoria. Tudo sob a falsa alegação da “necessidade de sustentabilidade do sistema previdenciário”, uma vez que está mais do que comprovado que o Previmpa é um sistema superavitário.

A Astec esclarece que até 2001, ano de fundação do Previmpa, a aposentadoria dos servidores era encargo exclusivo do governo municipal. Não havia contribuições previdenciárias nem do servidor  nem patronal.

Com o advento do Previmpa, se constituiu a partir de 2001 um fundo de aposentadoria e pensão por um sistema de capitalização para os novos servidores, ou seja, de contribuições dos servidores e patronal,  gerenciado pelo instituto  em um fundo próprio previdenciário que pagará integralmente as futuras aposentadorias e pensões desses novos servidores.

Entretanto, para os servidores antigos, anteriores a 2001, e aos servidores já aposentados, que passaram a também contribuir para a previdência com 11%, para os quais nunca houve contribuições patronal anteriormente, há uma dívida do munícipio para com eles.

O Município assumiu a dívida mas optou por não aportar o seu valor  total, que pelo cálculo atuarial previdenciário era estimada em cerca de 3 bilhões de reais, e decidiu não incluir os servidores antigos no novo regime de Fundo Capitalizado.

Na época, a prefeitura escolheu aportar mensalmente a complementação que faltasse das contribuições previdenciárias desses servidores num “Regime de Repartição Simples”, para totalizar o pagamento das atuais aposentadorias e pensões. Significa que os servidores antigos, ao pagarem as contribuições para as suas aposentadoria estão, de forma solidária, ajudando a  pagar aos aposentados das gerações anteriores com a aporte que a prefeitura complementa.

Assim, se estabeleceu dois regimes próprios previdenciários no Previmpa, a partir do marco temporal do início da Odisseia da Previdência dos Municipários em 2001. Um regime relativo aos novos servidores no Regime de Capitalização que hoje já conta com cerca de 400 aposentados, e o outro regime relativo aos servidores antigos no Regime de Repartição Simples com aportes complementares do fluxo de caixa do executivo. Esses aportes da prefeitura gradativamente vão diminuindo na medida que os servidores antigos forem se aposentando.

Conforme Edemilson Todeschini, presidente do Conselho de Administração do Previmpa, os servidores vêm sofrendo confiscos desde o prefeito Marchezan, pois a autonomia que a prefeitura ganhou de aumentar alíquotas está condicionada a buscar garantir a autossuficiência do sistema previdenciário. Entretanto, estudos atuariais comprovam que o Previmpa é superavitário, cujo Fundo de Capitalização já contabiliza cerca de 3 bilhões de reais aplicados no mercado financeiro.  A prefeitura tem usado uma interpretação intencionalmente equivocada de que a dívida assumida lá atrás seja um déficit do sistema, e quer que os servidores paguem a dívida que é da prefeitura.

Em 2009 já houve uma reforma que retirou o poder do Conselho do Previmpa de indicar o Diretor Previdenciário e o Diretor Administrativo que passaram a ser indicados pelo prefeito, facilitando o executivo de fazer essas manobras políticas diretamente com a Câmara de Vereadores para se apropriar dos recursos da previdência dos municipários.  Neste projeto de reforma o governo pretende retirar o caráter deliberativo do Conselho do Previmpa, órgão que passaria a ser meramente consultivo dos diretores nomeados pelo prefeito, para eles  fazerem as falcatruas que quiserem com o dinheiro da nossa aposentadoria e pensões.

As narrativas dos prefeitos são no sentido de que os servidores municipais da capital eram privilegiados em termos previdenciários. Alegam estar implantando no município a igualdade com o que foi feito no Congresso Nacional em relação à previdência dos trabalhadores no país, onde passaram a boiada por não haver mobilização popular nesta conjuntura de pandemia do coronavírus para o enfrentamento na defesa dos direitos conquistados com décadas de lutas.

O prefeito Melo chegou a apelar para a tática de incutir o medo na categoria, ameaçando aumentar as contribuições de 14% para até 22% por lei complementar, se não conseguisse a sua almejada reforma da previdência com o aumento das idades para a aposentadoria.  

Com esta chantagem mediante ameaça sobre os funcionários e vereadores da oposição, o prefeito conseguiu, após sofrer uma derrota no plenário, reverter o voto que faltava para aprovar o seu projeto de reforma da previdência na capital.

A Câmara de Vereadores de Porto Alegre deu aval ao ataque do prefeito Melo à Previdência dos municipários e aprovou, em segundo turno, por 24 votos a 12, o Projeto de Emenda à Lei Orgânica – PELO 02/20, que muda as regras e a idade para a aposentadoria, além da Emenda 1 e da sua Subemenda 2. Veja como fica pelo site do Simpa:

 

Regra geral:

Aposentadoria por idade:

a) 62 anos de idade, se mulher, e 65 se homem;

b) 25 anos de contribuição

c) 10 anos de efetivo exercício no serviço público

d) 5 anos no cargo efetivo em que for concedida a aposentadoria

 Aposentadoria Compulsória: 70 anos

 Professor:

a) 57 anos de idade, se mulher, e 60 se homem;

b) 25 anos de regência

c) 10 anos de efetivo exercício no serviço público

d) 5 anos no cargo efetivo em que for concedida a aposentadoria

 Aposentadoria de servidor exposto a agentes insalubres:

60 anos de idade

25 anos de exposição aos agentes nocivos

10 anos serviço público

5 anos no cargo

 Pessoa com deficiência:

10 anos de serviço público

5 no cargo

 >> REGRAS DE TRANSIÇÃO:

Para quem tenha ingressado no serviço público em cargo efetivo até a data de entrada em vigor do PELO 02/2020:

 PONTOS:

Idade:

Em 2021, 56 anos de idade, se mulher, e 61 anos de idade, se homem

A partir de 2022, 57 anos de idade, se mulher, e 62 anos de idade, se homem

 Tempo de serviço:

30 anos de contribuição, se mulher, e 35 anos de contribuição, se homem

20 anos de efetivo exercício no serviço público

5 anos no cargo efetivo em que se der a aposentadoria

 

Pontos (somatório da idade e do tempo de contribuição):

Em 2021: 86 pontos, se mulher, e 96 pontos, se homem

A partir de 1º de janeiro de 2022, a pontuação será acrescida a cada ano de 1 ponto, até atingir o limite de 100 pontos, se mulher, e de 105 pontos, se homem

Ingresso no serviço público até 31/12/2003: Ao servidor que tenha ingressado no serviço público até 31 de dezembro de 2003 e que possua, no mínimo, 15 anos na carreira, a pontuação é limitada a 95 pontos, se mulher, e 100 pontos, se homem.

 Proventos:

– Para quem ingressou até 15/12/1998: paridade e integralidade, desde que tenha, no mínimo, 15 anos na carreira a qual pertence por ocasião da aposentadoria, e 57 anos de idade, se mulher, e 62 anos de idade, se homem

– Professores que ingressaram até 15/12/1998: paridade e integralidade, desde que tenham, no mínimo, 52 anos de idade, se mulher, e 57 anos de idade, se homem

– Para quem ingressou até a entrada em vigor do PELO 2/2020: integralidade da média aritmética simples correspondente a 90% das maiores remunerações, desde que tenha, no mínimo, 15 anos na carreira

– Para quem ingressar a partir da entrada em vigor do PELO 2/2020: valor a ser fixado em futura Lei Complementar

 PEDÁGIO:

Idade:

57 anos de idade, se mulher, e 60 anos de idade, se homem

Pedágio (período adicional de contribuição equivalente ao resultado de percentual aplicado sobre o tempo que, na data de entrada em vigor do PELO 2/2020, faltaria para atingir o tempo mínimo de contribuição:

Quando faltar até 5 anos para se aposentar: pedágio de 50% do tempo que falta

Quando faltar de 5 a 8 anos: pedágio de 70% do tempo que falta

Quando faltar mais de 8 anos: pedágio de 100% do tempo que falta

Observação: O pedágio só terá que ser cumprido até os 62 anos, se mulher, e 65 anos, se homem, embora os demais requisitos tenham que ser cumpridos

 

        Com a aprovação, como parte do pacote de maldades, do Projeto de Lei Complementar Executivo – PLCE 18 de 2020, veja como fica pelo site do Simpa:

Segundo análise da assessoria jurídica do SIMPA, ao contrário do conteúdo do PELO 002/2020 – que se restringia basicamente à fixação de idades mínimas de aposentadoria, tempo de contribuição e de serviço público, além das regras de transição para quem já está na carreira pública;  – o PLCE 18/2020 complementa e amplia profundamente a reforma previdenciária, entrando em temas como as alíquotas previdenciárias; cálculo dos proventos de aposentadoria; possibilidade de acumular proventos e pensões; redução do valor das pensões; entre outros, inclusive o absurdo de passar a admitir a utilização do fundo de previdência para concessão de empréstimos consignados aos segurados, o que pode vir a prejudicar a administração e saúde do próprio fundo.

 - Diminui a faixa de isenção da contribuição previdenciária de aposentados e pensionistas do teto do RGPS. A alíquota previdenciária de 14% passa a incidir sobre o que supera o teto. Hoje, o salário mínimo brasileiro é de R$1.100,00 enquanto o teto do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) é de R$ 6.433,57. Esse valor é o atual teto de isenção da contribuição previdenciária para aposentados. A perda remuneratória é a mesma para todos os níveis na prefeitura, a partir do limite do teto do RGPS, porque é essa diferença que passará a ser tributada (R$ 6.433,57 – R$ 2.640,00 = R$ 3.793,57) = 14% x R$ 3.793,57 = R$ 531,10 de perda mensal nos nossos salários.

Principais alterações:

- Estabelece a regra geral para o cálculo dos proventos: 60% da média (considerando 90% das contribuições desde julho/1994), com acréscimo de 2% para cada ano que exceder 20 anos de contribuição. Portanto, para o servidor se aposentar com a “média integral” precisará contar com 40 anos de contribuição; - limita os proventos de aposentadoria ao teto do RGPS para os novos servidores e limita a possibilidade de acumular pensão e proventos de aposentadoria;

- Reduz o valor das pensões: será concedida uma cota familiar, correspondente a 60% do valor da aposentadoria, + 10% por dependente, limitado a 100%, sendo que quando um dos dependentes deixa de ter essa condição o seu benefício (10%) não reverte para os demais, mantendo-se a pensão integral apenas para dependente inválido ou com deficiência intelectual, mental ou grave;

- Acaba com a isenção da contribuição previdenciária de aposentado portador de doença grave, que hoje corresponde ao dobro do teto do RGPS (atualmente só contribuem sobre o que excede a R$ 12.867,14); exclusão dos benefícios auxílio-doença, salário maternidade, salário-família e auxílio-reclusão; -

- Garante o abono permanência equivalente ao valor da contribuição previdenciária para quem preencheu os requisitos para a aposentadoria voluntária por regra anteriormente vigente que não contemplava o direito ao abono de permanência, com efeitos a contar da data de entrada em vigor do PLCE.

O Simpa considera importante salientar que quem já adquiriu as condições de aposentadoria tem o direito de se aposentar a qualquer tempo pelas regras atuais, inclusive em relação ao cálculo dos proventos de aposentadoria, não sendo necessário encaminhar o pedido de aposentadoria antes da entrada em vigor da lei.

.....

No painel sobre previdência realizado online pela ASTEC, o advogado conveniado Lucas Abal Dias esclareceu que não havia a necessidade financeira desta reforma que tem apenas o objetivo de fazer caixa para a prefeitura, pois não há uma imposição constitucional que obrigue que se repita aqui a retirada de direitos que ocorreu no âmbito nacional.

Como comprovadamente não há déficit no sistema no Previmpa, são legalmente questionáveis os argumentos da exposição de motivos apresentados no projeto desta reforma. Se não há déficit não há necessidade de aumentar as idades e as contribuições. As justificativas apresentadas sem suportes técnicos não se sustentam, pois alegam uma deficiência que é da Prefeitura e não do Previmpa.

Todeschini, presidente do Conselho de Administração do Previmpa, resume que o objetivo da reforma previdenciária do Melo é que a nossa geração, que está na ativa  atualmente, além de pagar para a nossa futura aposentadoria também tenha que pagar para custear as aposentadorias de todas as gerações anteriores, que é a dívida assumida da prefeitura.  Querem que a gente pague a conta em dobro, para que a prefeitura não pague a sua parte nesta conta.

O Simpa está analisando a judicialização desta  questão enquanto aguarda a publicação do texto final da reforma da previdência aprovada.

O PREFEITO Sebastião Melo se revelou ser um Marchezan muito piorado, pois politicamente mais matreiro e ardiloso. Um político capaz de vilanias cruéis contra os servidores e a população porto-alegrense, com seu perfil de liberal bolsonarista com sanhas de privatizações. Está começando pela Carris e Procempa, mas pretende vender até a galinha dos ovos de ouro da prefeitura, em recursos e eficiência, que é o Dmae. É um entreguista do patrimônio e dos serviços públicos, terceirizando tudo para servirem de fonte de lucros do empresariado.

Que longa fase de sofrimentos está passando a categoria dos municipários de Porto Alegre!

                                                                                                                                        18/07/2021

                                                                                                                                   Celso Afonso Lima


REFORMA DA PREVIDÊNCIA E DO ESTATUTO DOS MUNICIPÁRIOS


           Quase dois anos depois das duas últimas postagens que fiz neste blog, sobre a greve dos municipários  de 40 dias em outubro/novembro/2017 e a distribuição em PDF do livro Memórias dos Municipários, constato que o blog Diário de Um Aposentando continua muito vivo, de lá até agora, em julho de 2019, teve mais de 19mil acessos. Ao ver que o blog já contabiliza 86.700 acessos desde o seu início em 2010, fiquei compelido a fazer este registro de agradecimento pela excelente acolhida dos meus textos por parte da categoria dos municipários. Para tanto julguei necessário resgatar uma resenha do que ocorreu nestes dois anos. Percebi, então, que apesar de ter acompanhado a luta sindical ferrenha que se estabeleceu com o prefake Marchezan, como aposentado acabei perdendo um pouco o fio da meada das batalhas, perdas & danos do movimento.
Se bem me lembro, enquanto rolava lá em cima no Planalto debates e protestos contra o projeto Temerário-Bolsonárico da Reforma da Previdência, aqui na capital do Sul do país o Projeto de Maldades do prefeito Marchezan de Reforma do Estatuto dos Servidores Municipais foi aprovado com folga em março/2019. Assim, depois de muita luta desde a histórica greve de 40 dias de 2017, seguida de outra também de 40 dias de julho/agosto/2018 e mais duas greves de guerrilha curtas em fevereiro e março de 2019, o crime do mandante prefeito foi cometido pelos vereadores com requintes de traição, extinguindo os direitos estatutários dos servidores municipais. Extinguiram a progressividade do percentual dos regimes; alteraram os avanços de 5% a cada três anos para 3% a cada cinco anos; extinguiram o adicional de 15% e 25% por tempo de serviço e alteraram as Funções Gratificadas (FGs) que só serão incorporadas após o funcionário completar todos os requisitos de aposentadoria voluntária. Além disso, o projeto prevê que os reajustes incidirão sobre o valor do salário básico, e não mais sobre os adicionais, o que achata ainda mais os vencimentos de servidoras e servidores do Município que já não recebem a reposição da inflação há três anos.
E lá em Brasília a injusta Reforma da Previdência também foi aprovada com folga na Câmara dos Deputados, mas menos mal que perdeu algumas das suas maldades. A Reforma aprovada perdeu o regime de capitalização em que os empregadores paravam de contribuir para a aposentadoria dos trabalhadores, perdeu sua intenção de retirar da Constituição dispositivos que protegem os cidadãos de outras reformas sem passar como PEC pela maioria absoluta de todo o Congresso Nacional, e perdeu a absurda intenção de reduzir a aposentadoria rural e o Benefício de Prestação Continuada – BPC, a ajuda aos oficialmente miseráveis da nação. Falta ainda retirar por emenda a maldade maior, a mãe de todas as maldades: a regra de cálculos dos benefícios como sendo o valor da média de todos os ganhos salariais durante a vida inteira de contribuições dos trabalhadores, e não mais sobre a média dos 80% maiores salários em que se descarta os 20% menores salários, geralmente do início de carreira, regra que rebaixará ainda mais o valor do benefício da aposentadoria. A votação em segundo turno na Câmara e a votação no Senado Federal poderá corrigir ainda algumas maldades, como as regras de transição prevista para apenas quem está até a dois anos da aposentadoria e o pedágio de 50% do tempo que falta, apesar de só poderem apresentar destaques supressivos, isto é, só podem tirar e não podem acrescentar nada ao texto aprovado. Ficam as questões espinhosas das idades mínimas e os tempos mínimos de contribuições para homens e mulheres, as categorias especiais de professores e policiais e dos imunes militares que ficaram blindados aos efeitos desse pacote de maldades das elites em nome do tal Mercado Financeiro contra o pobre povo brasileiro desempregado.
E nós municipários, como ficamos nessa balburdia desse entrevero? Por enquanto, por estratégias palacianas e parlamentares, a inclusão dos municípios e Estados nessa Reforma da Previdência deverá se dar através de uma outra PEC (Projeto de Emenda Constitucional) do Senado, que tramitará paralela à PEC da Reforma da Câmara, para fatiar a maldade de modo que com a fato consumado de uma PEC a outra seja engolida sem que se possa espernear mais.
Imagino a correria que deve estar ocorrendo de municipários pedindo aposentadoria às pressas para escapar da guilhotina das novas regras do pacote de maldades federal. Por isso mesmo penso que este blog, com sua temática sobre a aposentadoria, ganhou ainda mais protagonismo, merecendo ser retomado de alguma maneira, nem que seja para  acenar para quem está se aposentando que a vida segue livre e linda longe do mundo do trabalho, com relatos de quem já está aposentado há 8 anos, desde 2011.
E nós, classe municipária, como ficamos nessa balburdia desse entrevero em que somos atacados e saqueados por todos os lados? Continuaremos como sempre, na luta de resistência por tempos melhores: não podemos se entregar pros homens de jeito nenhum, amigos e companheiros!

BRINDE DO LIVRO DE MEMÓRIAS DOS MUNICIPÁRIOS EM PDF

Foi uma realização pessoal muito grande publicar este meu livro de MEMÓRIAS DOS MUNICIPÁRIOS, em cuja produção e edição trabalhei praticamente durante os últimos nove anos, para finalmente concluir em março de 2017. Livro este que reúne crônicas escritas a partir de 2009 até 2017, todas publicadas no meu blog Diário de Um AposentaNdo.
Tendo em vista que não conseguimos nenhum patrocínio para publicar o livro MEMÓRIAS, que resultou um tijolo com 523 páginas, mandei imprimir às minhas custas uma tiragem de apenas trinta volumes para distribuição restrita, presenteando parentes e amigos íntimos. Acontece que, com a notícia de lançamento do livro, muitos leitores do blog estão manifestando interesse em ter um exemplar,o que lamentavelmente esclareço que não será possível na versão física de livro, pois sua pequena edição já se encontra esgotada. Contudo, para poder atender a esta demanda dos leitores do blog Diário de Um AposentaNdo, elaborei  esta  segunda edição numa versão reduzida do livro MEMÓRIAS, agora em PDF e ainda assim com 330 páginas, para disponibilizar especialmente as postagens do capítulo Memórias Municipárias e algumas do capítulo Memórias Pessoais. Esta versão em PDF será distribuída online como um brinde de agradecimento a todos os municipários leitores do blog Diário de Um AposentaNdo,  blog que continua impressionantemente tendo milhares de acessos mensais e que já computa mais de 70 mil acessos.
Esta versão do livro MEMÓRIAS em PDF, que está sendo enviado como arquivo em anexo por e-mails para todos os meus contatos como leitores do blog, contém dois bônus não inclusos no livro original impresso em março/2017, que são os textos  “Livro do Resgate Histórico da Fundação do Simpa” e  “As Justas Razões da Maior Greve dos Municipários”; greve esta que resultou vitoriosa e que barrou o mais cruel ataque contra os direitos conquistados pelos Municipários em sua longa história de lutas em defesa do serviço público de qualidade.
Este livro com as nossas “Memórias” em PDF dedico aos ex-colegas interessados em ter um histórico como recordação de sua época no seu local de trabalho, de um ambiente que na realidade já não existe mais, só em nossa memória afetiva quando evocada pelas narrativas contidas neste livro.

Porto Alegre, novembro de 2017.


                                                                   Celso Afonso Lima

POR QUE OS MUNICIPÁRIOS DECIDIRAM FAZER GREVE?!

A esta altura do ano, já em setembro em plena primavera, na pior das hipóteses a categoria dos municipários deveria estar lutando pelo seu reajuste salarial referente a sua data base que é em maio de 2017, reivindicando alguma reposição tipo 6% (INPC). Entretanto, após a posse do prefeito Marchezan em janeiro, que escolheu os servidores municipais para serem o bode expiatório de sua gestão, ao invés do negociar o reajuste dos funcionários, decidiu reduzir os salários em 3% , através de um projeto  de aumento da contribuição previdenciária de 11% para 14%, sem apresentar nenhum cálculo atuarial que justificasse o aumento, desnecessário conforme o próprio Previmpa. O chamado pacote de maldades do prefeito contra os municipários recorreu à usual estratégia de parcelamento do pagamento dos salários, sem sequer considerar a possibilidade do reajuste a que teriam direito. Não satisfeito com a sangria nos vencimentos dos servidores, o prefeito partiu para um ataque brutal sobre as conquistas trabalhistas visando a destruição do plano de carreira da categoria, encaminhando um projeto que visa acabar com os adicionais por 15 e 25 anos de serviço. Marchezan decidiu também promover a precarização dos pagamentos dos regimes de trabalho de cada funcionário, os quais ficariam sujeitos a renovações anuais  e submetidos ao crivo ideológico do partido que estiver no poder, subvertendo  absurdamente a autonomia técnica do quadro funcional que ficaria refém dos interesses partidários em detrimento dos interesses públicos. Pretende simplesmente exterminar com o regime de dedicação exclusiva dos técnicos de nível superior, regredindo aos tempos em que o serviço público era um biscate e um cabide de emprego para os profissionais liberais. Marchezan foi muito além no seu enfrentamento decretado pela administração municipal contra aqueles que deveriam ser vistos como aliados do gestor na prestação de serviços para a população,  decidiu que quer acabar numa tacada só  também com a Licença Prêmio, terminar com o direito à incorporação das Funções Gratificadas e até proibir as substituições de chefias em férias e também mudar os avanços salariarias de trienais para quinquenais. O cara entrou de sola com o seu pacote de desvalorização dos servidores municipários, além de cortar até 50% dos vencimentos no conjunto dos seus projetos de destruição do serviço público municipal, usando a velha tática de sucatear para privatizar, pretende vender o Dmae e transformar a água numa mercadoria de negócio lucrativo para os empresários e proibitiva para a população de baixa renda. Com a finalidade de destruir com o serviço público,  o prefake segue sapateando com infâmias na mídia sobre a dignidade de uma categoria que tem consciência de sua função social de servidores públicos da comunidade porto-alegrense.
A esta altura do ano, às vésperas do verão que promete ser o pior de todos os tempos, a categoria municipária já esgotou seus esforços para a abrir um canal de discussão com o novo prefeito sobre a real situação financeira da prefeitura de maneira transparente, que certamente não é a de terra arrasada e falida que lhe interessa propalar. Diante da intransigência e radicalismo do Marchezan no seu objetivo de fazer do sacrifício dos servidores municipários sua plataforma de afirmação política, pouco se interessando pelos consequentes prejuízos na qualidade dos serviços prestados ao povo de Porto Alegre que o elegeu, a única alternativa que nos restou foi o recurso extremo da fazermos uso da principal ferramenta de luta da classe trabalhadora que é a greve. Greve pelo fim do parcelamento dos salários, greve pela retirada dos Projetos de Leis que eliminam direitos conquistados na Lei Orgânica e no Estatuto dos servidores e, para voltarmos à normalidade das relações trabalhistas de discussão sobre as perdas salariais, greve pelo reajuste salarial de 2017. Quem semeia vento colhe tempestades: agora é Greve dos Municipários!

SESSÃO DE AUTÓGRAFOS DO LIVRO MEMÓRIAS DO BLOG DIÁRIO DE UM APOSENTANDO






ESCLARECIMENTO:
         Tendo em vista que não conseguimos nenhum patrocínio para publicar o livro, e como também não houve mobilização suficiente dos leitores do blog para fazermos um financiamento coletivo através de uma vaquinha online, o chamado Crowdfunding, mandei imprimir uma tiragem de apenas trinta volumes para distribuição restrita, presenteando parentes e amigos íntimos. Portanto, como com a notícia de lançamento do livro muitos leitores do blog estão manifestando interesse em acessar um exemplar, esclareço que isto não será possível na versão física de livro. Porém, para atender esta demanda dos leitores deste blog que continua tendo milhares de acessos mensais, estou trabalhando para disponibilizar uma versão em PDF, especialmente do capítulo MEMÓRIAS MUNICIPÁRIAS, para ser distribuída online como um brinde de agradecimento a todos. Abraço, Celso.

LIVRO MEMÓRIAS DO BLOG DIÁRIO DE UM APOSENTANDO


              NOTA DO AUTOR

            É uma realização pessoal muito grande publicar este livro de minhas Memórias, em cuja produção e edição trabalhei praticamente durante os últimos nove anos, para finalmente concluir agora em março de 2017. Livro este que reúne crônicas escritas a partir de 2009 até 2016, todas publicadas no meu blog Diário de Um Aposentando.
O Rito de Passagem da vida profissionalmente ativa para a vida de aposentado é um momento crucial, uma espécie de “experiência de quase morte”, quando temos a nítida percepção de que vai ocorrer a morte da existência que tivemos até então na sociedade, e sentimos que a luz no fundo do túnel deste umbral de passagem é muita tênue e fugidia para a maioria dos mortais.
Como nos relatos clássicos das experiências de quase morte, também neste rito de passagem para a inatividade profissional, passa um filme na cabeça e no coração da gente. Repassam todas as etapas que percorremos na vida para chegarmos até este momento aguardado com tantas expectativas libertárias do jugo diário do trabalho, em que corremos atrás do rabo pra ganhar o sustento de cada dia e garantir a velhice com algum conforto. Mas, como no leito da morte, na hora da passagem dá medo do desconhecido que nos espera no além, na inatividade da aposentadoria.
Com o advento do blog, aproveitei este rito de passagem para escrever, em formas de crônicas aleatórias com ganchos em temáticas de notícias do momento, o roteiro deste filme longa metragem da minha vida que me passou na mente às vésperas da aposentadoria, a partir de meados de 2009. Crônicas escritas com conteúdos tanto no âmbito das minhas memórias biográficas (infância e adolescência, família e internato), como no âmbito da minha carreira de servidor público municipal (atividades profissionais e sindicais, relações funcionais e amorosas) e, também, como não poderia deixar de ser, no âmbito das minhas clandestinas atividades literárias que me acompanharam a vida toda.
Em verdade, eu imaginava que no final resultaria apenas um livro de memórias municipárias, mas no trabalho de edição acabei classificando os textos em três grupos (Pessoais, Municipárias e Literárias) e, só então, percebi que havia escrito o Livro de Memórias da Minha Vida, aos 63 anos de idade. Foi para mim uma maravilhosa surpresa, pois jamais me animaria a esta pretensiosa tarefa de escrever deliberadamente um livro de minhas memórias. Mas, como um típico anônimo, adorei ter o meu próprio Livro de Memórias para deixar aos meus descendentes como o relato da minha época no mundo.

Porto Alegre, março de 2017.
Celso Afonso Lima



REFLEXÃO SOBRE UM LONGO CICLO DE FORMAÇÃO POLÍTICA

Há 35 anos atrás, quando o Partido dos Trabalhadores engatinhava no seu primeiro ano de vida, minha geração (que tinha passado a adolescência amordaçada pelo regime de ditadura instalado no Brasil em 1964)  se integrava ao movimento de construção de uma ferramenta partidária de lutas dos trabalhadores, convergindo com militantes de grupos que vinham das guerrilhas revolucionárias de resistência, com um imenso arsenal teórico sobre marxismo. Mas a diretriz das lideranças petistas era de que nós construiríamos as nossas próprias teorias revolucionárias no avançar do movimento. Convictos do acerto desta diretriz de construirmos um partido de massas e não de vanguardas intelectuais dirigentes das lutas sociais do povo, demos umas olhadelas superficiais nos livros sobre marxismo, leninismo e trotskismo que culminaram no trágico stalinismo, e nos jogamos na militância durante uma década no sindicalismo e nos movimentos populares, com a bandeira da democratização do país e de organização da classe trabalhadora: Trabalho, Terra e Liberdade!
                Atravessamos a campanha Diretas Já! na década de 1980, com a transição lenta e gradual e a anistia geral ampla e irrestrita aos torturadores, e o PT cresceu elegendo vereadores, depois prefeitos e governadores e até chegar com o Lula Lá como presidente da República em 2002. O sonho impossível se realizou. Depois parecia tudo dominado, Lula se reelegeu e elegeu também sua sucessora. Porém, cada vez menos, se reconhecia nos governos petistas um Programa de Esquerda, uma elaboração teórica qualquer que fosse pelo menos reformista da ideologia de Estado Mínimo Burguês e que mobilizasse as massas por sua conquista. Nenhuma reforma, nem política nem educacional, nada; o petismo caiu no canto de sereia da governabilidade por um governo de coalizão. Entrou no tradicional jogo deles de corrupção nas Estatais para comprar aliados da direita à extrema-direita pra base de apoio do governo, até se fragilizar o suficiente para sofrer o Golpe Parlamentar pelo Congresso Nacional e, descaracterizado de suas origens, não ter mais apoio popular para reagir. 
Por fim, três décadas depois da fundação do PT, assistimos a Esquerda sair do governo desmoralizada politicamente sob um massacre da mídia na opinião pública e sob vara da politização da justiça federal. Mas, principalmente por seus próprios erros, a Esquerda é escorraçada do poder e nos faz voltar à estaca zero na organização das lutas populares. Assim, completamos um longo ciclo de formação política ao assistirmos do sofá a meninada dos estudantes secundaristas resistindo ao Golpe no #OCUPAESCOLAS.

Não fizemos as lições de casa nos estudos lá no início sobre marxismo, leninismo, trotskismo e stalinismo e suas atualizações teóricas sobre a luta de classes no capitalismo dos tempos mais atuais. Faltou, por exemplo, lermos Gramsci com o seu conceito de “Bloco Hegemônico” que diz: o poder das classes dominantes (donas do modo de produção capitalista) sobre o proletariado é garantido pela hegemonia cultural, através do controle do sistema educacional, das instituições religiosas e dos meios de comunicação. Através do sistema hegemônico (de Escola Sem Partidos), eles educam a submissão como algo natural. Por esta lacuna de formação política de combate no petismo, pagamos caro o pato para a Fiesp!

CARTA PARA O MEU NETO LER QUANDO CRESCER

        Diante da incomunicabilidade dos dias atuais entre nós brasileiros devido ao acirramento das narrativas de ódio no espectro político, escrevo esta crônica dirigida ao meu neto de cinco meses de vida. Escrevo como quem, sem ter com quem conversar a respeito deste espinhoso assunto, transmite para um idealizado tranquilo momento futuro uma mensagem escrita por necessidade minha de elaboração mental dos dias surreais que vivemos hoje, para eu não enlouquecer junto com esta realidade demente
O ponto que quero abordar, meu neto, é o papel das mídias em nossas vidas, especialmente as grandes redes de televisão concentradas nas mãos de cinco famílias que dão as cartas e jogam sempre de mãos dadas com a políticagem, a justiça e a polícia federal. Sem querer me aprofundar nas tenebrosas articulações políticas, contudo preciso contextualizar estes tempos difíceis para que todos os nossos netos compreendam o que vivenciamos de fato, pois não sabemos como a versão oficial da história vai contar esta passagem nas escolas futuramente, nem qual narrativa sairá vencedora deste embate.
Saiba meu neto que, com a reeleição da Presidenta em 2014, os especialistas já indicavam que elegemos junto o pior Congresso Nacional da nova era democrática do país, como de fato constatamos todos na lastimável e deprimente “célebre sessão de aceitabilidade do impeachment da Presidenta” da Câmara dos deputados em abril/2016, sessão que foi transmitida ao vivo pela TV aberta na íntegra. Foi de chorar!
Mas até o final de 2015, apesar das crises política e econômica se agravarem mutuamente com aceleração crescente, tudo corria bem no país da Operação Lava Jato que seguia investigando seletivamente os crimes de corrupção do PT na Petrobrás. Tudo corria bem até quando o presidente da câmara aceitou a denúncia por crime de responsabilidade e de impeachment contra a Presidenta da República. O mesmo sujeito que logo depois de fazer o serviço sujo de iniciar o Golpe seria cassado e descartado pelos golpistas, e que acabou de ter a sua prisão preventiva decretada devido às suas contas de propinas bilionárias na Suíça.
A bem da verdade, meu neto, a grande imprensa já estava operando em conluio com os demais poderes da União na divulgação seletiva e com abordagens de intermináveis massacres difamatórios dos governos Lula-Dilma e visando criar uma mobilização de setores da sociedade em manifestações de rua de protestos antipetistas por todo o país. Conseguiram criar assim as condições de apoio popular para o Golpe a ser dado sob uma roupagem legalista de impeachment, só que sem crime de responsabilidade como exige a Constituição Cidadã e sem que o Supremo Tribunal Federal se dignasse a entrar no mérito desta questão. A justiça simplesmente lavou as mãos com a lama que sedimentou o Golpe da maioria parlamentar que, com um discurso oportunista contra a corrupção, empossou um governo repleto de ministros réus ou indiciados por corrupção e praticantes de políticas de intolerâncias com os movimentos sociais e de atropelo dos direitos humanos.
Confesso que somente no episódio sensacionalista da midiática “Prisão Coercitiva do Lula” que foi levado para fazer um depoimento trivial em março de 2016,  é que me dei conta que o circo da cobertura televisiva e dos jornais impressos estava operando uma imensa farsa de âmbito nacional, articulado premeditadamente para ter repercussão internacional negativa na excelente imagem que o ex-presidente ainda detém no exterior, pelo seu feito governamental de ter tirado dezenas de milhões de brasileiros da fome e da miséria absoluta e também por ser um pop-star mundial por sua descontraída diplomacia internacional e criação do bloco dos países emergentes no BRICS.
Este teu avô aqui sempre foi um viciado em noticiários políticos, notoriamente em telejornais, ou seja, um dependente informativo do Jornal Nacional da Globo, como a maioria dos brasileiros que lamentavelmente ainda buscam informação na TV. Mas a coisa começou a ficar nojenta e insuportável quando as manipulações passaram a ser escancaradas, como o caso do Juiz da Lava Jato que fez escutas decretadas ilegais pelo STF de conversas da Presidência da República, portanto de segurança nacional, e as divulgou na mídia às pressas para influenciar no agravamento da crise política naquele momento crítico pré-Golpe.
Depois disso a perseguição política e o massacre midiático seletivo sobre denúncias de corrupção na Petrobrás passou a ser um samba de uma nota só, deixou de haver jornalismo informativo, todos os canais de televisão adotaram a narrativa de que a corrupção era exclusividade dos petistas vermelhos e que derrubá-los do governo era a salvação nacional verde-amarelo. Mesmo que fosse apoiando as forças sabidamente  mais corruptas e retrógadas dos partidos que sempre estiveram dentro deste governo de coalisão e de suas práticas de corrupção institucionalizadas desde sempre, mas que nunca foram investigadas nos governos anteriores. Convém que saibas, meu neto, que o mundo estava vivendo uma crise econômica prolongada desde 2008, e a onda de tentação fascista cresceu tanto na Europa contra os imigrantes refugiados das guerras no Oriente Médio e na África, como nos EUA. Também no Brasil o discurso de intolerância racista e homofóbico do fascismo ganhou notórios defensores públicos e militantes políticos, numa reação feroz do capitalismo selvagem visando eliminar as migalhas de direitos sociais conquistadas pelos pobres e as minorias em árduas lutas travadas por décadas, tais como saúde, educação, moradia, liberdade de opinião e garantia de validade democrática do voto contra golpes de Estado.
A partir daí, meu neto, cresceu a nossa busca por uma imprensa alternativa na internet. Cada um de nós, leitores ávidos por informações, foi fazendo links com blogs e sites de jornalismo livre e de coberturas ao vivo de eventos e movimentos que a mídia tradicional simplesmente ignorava ou minimizava e distorcia com manipulações escrachadas. Só pra tua geração do futuro ter uma ideia da desinformação que as redes de telejornais praticam hoje, neste momento estão ocupadas mais de 1.000 escolas pelos estudantes secundaristas acampados nelas, além de 50 universidades e 80 institutos federais protestando contra a PEC241 e contra a Reforma do Ensino, e nada disso é noticiado, por incrível que pareça. A radicalização e a cultura de ódio antipetista implementada pela mídia tornou o ambiente das redes sociais um campo de batalha e de insultos fascistas, dividindo o povo brasileiro como duas tropas inimigas em guerra aberta e sem possibilidade de diálogos. Divisão simbolizada pelo muro que ergueram em frente ao Congresso Nacional para separar os contra o Golpe e os a favor do impeachment nos dias das votações na Câmara e no Senado.
A busca de informações em fontes alternativas no início era  complementar às das notícias das grandes redes de comunicação, mas logo estas começaram a nos causar tanto mal-estar e revolta que nos vimos compelidos a não mais assistirmos noticiário de TV nenhuma, veja só a que ponto chegamos, meu neto. Era uma questão de saúde mental e harmonização social rompermos com o hábito enraizado que tínhamos de acompanharmos regularmente os telejornais. Tivemos que nos imunizar das manipulações de massa a partir da posse do governo interino ilegítimo do então vice-presidente e traidor Temer, até a finalização do impeachment que cassou mais de 50 milhões de votos, quando a mídia foi recompensada com verbas estatais e tornada definitivamente placa branca. Após meses agonizando em debates de surdos num jogo de cartas marcadas no Congresso, o Golpe acabou se consumando no dia 31/agosto/2016, revelando ao vivo pela TV ao povo brasileiro a mediocridade também dos senadores da República.
Nós, a esquerda democrática petista e principalmente a não petista (que é o meu caso), feito membros de uma tribo de Alcóolatras Anônimos Agrupados (AAA) nos agrupamos na internet para conseguirmos não mais nos envenenarmos com a imprensa golpista e nos ajudarmos mutuamente a resistir e a combater a lavagem cerebral que faziam na população com o surrado discurso anacrônico contra “os comunistas vermelhos”.
 Não sei qual será a realidade do Brasil quando leres este texto com maturidade pra interpretar seus fatos, meu netinho, mas no tempo em que escrevo a Rede Globo de Televisão era praticamente um monopólio e fazia a cabeça geral da chamada opinião pública. Espero que isto já tenha mudado no seu tempo e que o direito à informação tenha sido democratizado. Saiba que não era uma tarefa fácil se livrar do vício das doses diárias de Globo na mente da gente, era uma espécie de Matrix (procure ver este filme pra entender a metáfora). A coisa funcionava assim, o carro-forte da emissora eram as telenovelas com quase um ano de duração cada uma e eram várias por dia. Então, estes folhetins de teledramaturgia, em que pese os excelentes atores da emissora, eram esquematicamente repetitivos. Bastava assistir os primeiros capítulos da novela  e depois, através dos anúncios do próximo capítulo durante o Jornal Nacional, poderíamos ir acompanhando sem gastar tanto tempo assistindo. Mas isto funcionava como uma armadilha de duplo sentido: tanto capturava os telespectadores dos telejornais para as novelas, como destas para os noticiários e viciava a todos em ambos.
Tem males que vêm pra bem, meu neto, pois foi preciso que uma quadrilha de velhos raposões larápios tomassem de assalto o Brasil, em nome do combate à corrupção e prometendo “estancar a sangria dos políticos acabando com a operação contra a corrupção Lavajato”, para eu conseguir me livrar do vício do Jornal Nacional. Mobilizado para resistir até  a posse do próximo presidente eleito pelo voto popular em 2018, neste momento em que transmito esta mensagem para leres no futuro, estou em abstinência de telejornais e novelas há mais três semanas, desde a macabra sessão da Câmara dos Deputados, no início de outubro/2016, de aprovação da PEC241/2016. Que foi a votação em primeiro turno de mais um Golpe da maioria parlamentar escrota e fascista, que aprovou uma absurda violação da Constituição com um plano econômico de congelamento dos gastos com saúde, educação  e serviços sociais “por 20 anos!” no país. Não vão deixar pedra sobre pedra das conquistas sociais, prometem reforma trabalhista atropelando a CLT, reforma do ensino amordaçando intelectualmente as futuras gerações e reforma previdenciária empurrando a aposentadoria para os 70 anos de idade, para o pós-morte. Ninguém merece.
Até tentei assistir esta semana na TV Cultura o programa Roda Viva, com a ministra recentemente eleita presidente do STF. Mais uma vez era o circo armado só com entrevistadores alinhados com o governo ilegítimo fazendo perguntinhas fáceis para consagrar a entrevistada no centro da roda. Uma jornalista da Globo News até perguntou pejorativamente com um riso irônico: Teve golpe? Cuja resposta foi apenas outro riso da ministra. Analise comigo, meu netinho, mesmo com a tua distância no tempo. Se era um programa de jornalismo e a nação estava dividida entre estas duas narrativas, de Golpe X impeachment, não devia ter pelo menos um entrevistador de esquerda para perguntar sério: Ministra, o STF vai aceitar passivamente sempre que uma eventual maioria parlamentar resolver destituir um presidente eleito  por um motivo banal qualquer (que nem precise se comprovar como crime de responsabilidade), como se o sistema não fosse presidencialista e sim parlamentarista, ou este “não querer entrar no mérito da questão” por ser um “julgamento político” é uma maneira da Suprema Corte endossar, por omissão, o golpe contra este específico governo por ele ser de esquerda?...
Querido neto, encerro esta cartinha como um desabafo da minha geração que apostou suas melhores fichas, que chegou a estar dentro do poder com a faca e queijo na mão para espantar os ratos, mas que fracassou na missão de entregar o país reformatado para os seus descendentes.  Resultou que, mesmo com as manchetes de ontem de prisão do ex-todopoderoso presidente da Câmara, o pai do Golpe,  não tive nenhuma recaída no meu vício de assistir aos telejornais do dia, preferi assistir aos jogos de futebol  da dupla Grenal, pois sabia que fariam uma narrativa orquestrada em benefício de suas conveniências políticas e estratégicas. A meta deles agora é o Golpe Final:  conseguir a ilegibilidade para 2018 do ex-presidente Lula através da Operação lavajato, cuja perseguição continua implacável atrás de uma acusação qualquer que possa condená-lo à tempo. Ele representa o que restou de saldo eleitoral com potencial de unificar todos os movimentos sociais de esquerda deste país na luta pela retomada das rédeas do poder usurpado sem o voto popular. O voto secreto na urna é  que diferencia um regime democrático com legitimidade deste governo autoritário que passamos a vivenciar nestes dias tenebrosos.
Assim, Leonardo, meu único neto (por enquanto!), quando estudares esta página infeliz da nossa história na escola, lembre desta carta do teu velho avô; tomara que eu ainda esteja vivo e lúcido para discutir contigo os detalhes sórdidos deste período surrealista mórbido do nosso querido Brasil.